Os dois velhinhos

Algo que já vinha na trilha eterna do destino, talvez há milênios, realizava-se entre aqueles dois. Era uma aproximação original sem palavras fáceis para definir em forma de sentimento o que os dois estavam a inaugurar, todos os dias, encontrando-se na Praça Nossa Senhora da Paz. Era uma relação nova, inusitada, respeitadora do passado e do presente de cada um, limpa, por vezes quase paranormal (da parte dele), psicanalítica, maternal, paternal, literária, íntima e ao mesmo tão distante quanto Marte da Terra.

 Falo mais claro: Ele era viúvo de um casamento de amor plenamente realizado. Professor, tinha um senso de aberto e amplo das coisas. Ela era casada e vivia uma relação pacificada, amiga e de grande cumplicidade. Conheceram-se na Igreja e, depois, quase todos os dias se encontravam para conversar na Praça defronte. Nos bilhões de anos que cada ser humano leva dentro (sem perceber), o que terá unido pessoas que pouco se viram na vida para uma amizade (será esta a palavra) etc assim encantatória?

 Ele viera de Santa Catarina viver sua aposentadoria no Rio, onde vivera em criança e para onde sempre ansiou por voltar. Ela, carioca da gema. Começaram a conversar vaguidades e, pouco a pouco, a relação foi-se aprofundando e penetrando num território mágico, que não tinha mão na mão, beijo, nem era uma relação de amor nos termos tradicionais. Era algo por cima e muito além, espécie de irmandade misteriosa. Nem ele traía a memória da falecida nem ela era desleal com o marido. Sabia que ele não gostaria, se soubesse que se viam, na Praça Nossa Senhora da Paz apenas para conversar. Não! A palavra conversar é pouco: para exercitar uma vivência sem nome transformada em estima verdadeira, em adivinhações de necessidades profundas um do outro. Não era conversar: era um encontro de almas, um encontro sem sexo, embora houvesse atração e até pudesse ter existido em diversa circunstância. Jamais puderam pensar que depois dos setenta anos ambos viveriam aquela intensidade de afinidades. Às vezes, apressados, apenas trocavam duas palavras, mas suficientes para pacificar a saudade e ambos sabiam compreender quando o outro não ia à Praça aquele dia, teria de ser porque não podia. Literatura, música, recordações parecidíssimas da década de quarenta, assuntos que em seis bilhões de pessoas do mundo só eles poderiam trocar daquela maneira tão intensa e afinada.

A ninguém contaram daquela intimidade espiritual, espécie de segredo acalentado pela certeza de que só os dois poderiam compreendê-la daquela forma. Ademais, pela idade, já tinham mais amigos mortos que vivos, entre parentes queridos e especiais e amizades de décadas. Vivência de velho não tem confidentes.

Ultimamente nenhum deles tem sido visto na Praça por este cronista que fica daqui a imaginar mil coisas ruins de dor e saudade de uma relação sem nomenclatura e classificação e que só os dois sabiam o que era. Tudo imaginação?

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