Tango de mal(i)enae

E ele tomou-a de inopino e pôs-se a bailar um tango às onze da manhã em plena praia do Leblon ensolarada, passantes espantados, velhos tortos, mulheres barrigudas, deusas deslumbrantes, parrudos de diversos jaezes, corredores de praia que falam sozinhos e eles ali a bailar um tango que só os dois ouviam, Malena, e o Leblon era Ipanema nos anos 50, ambos lindos e plenos. Mas impossíveis. Os cabelos bastos de Maliê eram coreografia. Ele, um menestrel desastrado, um tímido Albereto que, de repente, resolveu desafiar anos de uma vida longe de si mesmo, com tantas âncoras solidamente fincadas na areia do tempo, ele, um adventício, recém-chegado ao que lhe era antigo. Subitamente estavam em Cádis, sem tango, e latejava no ar um halo de passado levantino, tuaregs sentados à porta das cabanas a olhar e bendizer estrelas. Nunca ele pode esquecer o olhar dela a seguir a estrela Vésper. Ele compreendeu seu ato impensado e, embora orgulhoso da ousadia, subitamente sentiu-se invasor e encabulou. Porém mais feliz que menino criado com carinho por braços bem torneados e mornos. 

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