Waldo e Juremir

Chamava-se Oswaldo Perneta, família ilustre, com escritores e políticos famosos, e de fartos recursos, com muitas terras perto de Santo Antônio de Pádua no Estado do Rio, interior. Aos 57 anos só tinha uma paixão: o rádio. Desde garoto. Como não precisava de salário para viver, foi ser locutor e, durante muitos anos, trabalhou de rádio em rádio, nos horários mais estranhos e ganhando pouco, como ganham os locutores. Os filhos cresceram, casaram-se e foram tratar da vida. A mulher se cansou de tanto que ele falava inutilidades, a comentar a falta de cultura das rádios onde trabalhava com sua boa voz de locutor. Nervosa, exigente e elitista, considerava rádio coisa da patuléia. Separaram-se há quatro anos e ele deixou tudo para ela, menos os discos e livros, e foi morar num apartamento pequeno mas confortável, na Glória. Seu nome artístico (detestava aquele Perneta no sobrenome) era Waldo Pernê, que até soava bonito no rádio. Ninguém valorizava seu trabalho e de nada lhe servia a sólida cultura literária e musical acumulada. Quase nada gastava consigo mesmo, o apartamento tinha uma arrumadeira desmazelada e vivia na balbúrdia de roupas, discos, livros e muita poeira. Com o dinheiro que lhe sobrava, há dois anos teve uma idéia. Foi a uma dessas rádios AM de baixíssima audiência e potência, que vivem de alugar horários, e alugou de meia-noite às duas da manhã. Nenhum patrocinador. Pagava do próprio bolso.

 Chamava-se o programa “A noite é bela com Waldo Pernê.” E ficava no ar ao vivo, diariamente, menos aos domingos, melhor dito, noturnamente, a conversar de modo sensato, num português simples mas de primeira, com os ouvintes, a comentar  os fatos do dia com profissionalismo e conhecimento dos assuntos, tudo entremeado por uma programação musical de alto bom gosto. Audiência baixíssima. Vez por outra lhe chegavam cartas ou de alguma professora mais sensível e insone, ou de algum notívago inteligente e solitário, às quais fazia questão de responder, felicíssimo. Nada mais que umas cinco cartas por mês.

 Uma ouvinte, porém, visivelmente inculta, escrevendo muito mal, revelava empatia profunda com Waldo. Pedia desculpas por não saber escrever direito e se dirigir a ele, mas comentava assuntos por ele abordados e adorava música. Parecia fanatizada por ele, pois passou a enviar três cartas por semana, mesmo sobrando-lhe pouco tempo no trabalho de empregada doméstica de um casal de velhinhos que dormia cedo, mas dava muito trabalho durante o dia.

 Waldo começou a amá-la até sem pensar em sexo ou beleza, assuntos pelos quais sua cessante libido o fizera quase indiferente. Amou aquela alma. No dia em que ela foi vê-lo na rádio, depois de um ano, ele se deparou com uma pessoa comum, sem atrativos, cabelos feios e descuidados, mais gorda do que deveria. E, misteriosamente, ele já não podia conceber a vida e o trabalho sem ela. E vice-versa.

 Hoje estão unidos. Moram juntos no apartamento dele, que está um brinco. Ela não lhe exige nem pede nada. Nunca pergunta aonde vai. Aliás, ele quase nunca sai ou vai: só para a rádio. Não mantêm relações sexuais, ele não se sente atraído e ela não força situações, nem parece pensar no assunto. Mas se abraçam muito e dormem agarradinhos. Ele gosta do cheiro dela, de banho noturno. Waldo Pernê continua a fazer companhia a poucos nas madrugadas de sua rádio. Sabe-se um profissional muito além da repercussão do que faz, nem pensa mais nas frustrações da baixa estima, nem coisa alguma deseja senão fazer o programa e ter a certeza de que Juremir (este o nome dela) está ali, calada ou falando pouco, sem jamais incomodar, quase o chamando de senhor, mas loucamente apaixonada por ele. E correspondida.

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