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Cansaço e caderno encardido na luz
amarelada da sala, fios à mostra. Dorida sala de aula. Paredes cansadas
de palavrão. Bancos melados ouvem o professor
ofegante que idealiza salários e um Brasil melhor no guarda-pó
amargurado. Lá fora, a rua é fragor e antes
das dez já deu vontade de trepar. O pai ferroviário não desconfia da
perda há tempos da filha, enquanto a mãe esperançosa passa a roupa da
formatura desde o primeiro ano. O texto é difícil. O tédio
desaprende a atenção e desprepara
o saber. As guerras púnicas são bocejo. A fome fermentada em azia, coadjuva
o esforço de vir a ser. Disputas
perdidas de antemão relegam a vida a planos secundários. Resta o sonho
do impossível e a idealização do turno da manhã, com professores e
louras alegres. Tudo é Natal no turno da manhã..... Um sono e três assaltos; matemática
entre fumaça de ônibus humilhados e peripécias diárias pelos trens da
Central. O
desdentado grosseiro coça o saco. Artistas abundam e desbundam na capa
dos cadernos. Ninguém
fala de Chopin. Nem lê os poemas de Manuel Bandeira. O
viado da turma já está ferido de morte e não sabe. Metade
dos alunos confia na vida e tudo é mérito. A filha do pastor com medo da
menstruação. A caspa insulta alguns paletós. Há
gosto de sebo no pão dormido da
cantina no intervalo e o espinhento se masturba estupefacto, só com dois
dedos disfarçando pelo bolso furado da calça. No fundo da sala um vascaíno
escuta o jogo na AM do radinho de pilha, fone no ouvido, O esforçado troca o direito ao
jantar por arroto de quibe ou pastel. Uma rádio lá fora berra o funk e a
moça feia mastiga a goma da desesperança num ruidoso chiclete sem fim. 27-10-2004 |