Da Arte de viver

Rollo May, um psicanalista importante que já esteve em moda e anda esquecido, em conferência feita no Rio de Janeiro há muitos anos, definiu “destino” de maneira bastante curiosa: “É o desígnio do universo a se manifestar através do desígnio de cada um de nós”. Adiante, coloca vários níveis através dos quais o destino se nos impõe:

  1. Um destino cósmico: nascimento e morte ou então imposições telúricas imponderáveis como terremotos, tempestades etc.;
  2. Um destino genético: nascemos (querendo ou não) com determinadas características físicas, cor da pele, sexo, talentos, parecenças. Nada podemos fazer diante delas. São parte do nosso destino;
  3. Um destino cultural. E acrescenta Rollo May: “Ao nascer somos “jogados” (no dizer de Heiddeger) numa família que não escolhemos, numa cultura sobre a qual nada sabemos, numa época da história pela qual não optamos”;
  4. Um destino circunstancial: alterações dos acontecimentos políticos de um país, da economia, guerras.

Interrompo para acrescentar que parte enorme de cada vida, está fora do alcance da própria liberdade, É condicionada, queiramos ou não. A liberdade consiste em saber o que fazer diante do que o destino nos impõe e como ocupar os espaços nos quais ele não age diretamente. Este espaço da ação própria é a grande liberdade: a saúde, a vida, a criatividade.

Volto a Rollo May. Nessa citada conferência, ele relaciona ou sugere diversas maneiras de se relacionar com o destino:

  1. Cooperar com ele;
  2. Conscientizar-se do próprio destino e reconhecê-lo;
  3. Usar o destino, fazer da vida sua consequência;
  4. Enfrentar e desafiar o destino;
  5. Rebelar-se contra ele.

“Nenhuma dessas maneiras – é Rollo Mauy quem o diz – exclui nenhuma outra, naturalmente, e todos nós, usamos todas elas em ocasiões diferentes.”

E conclui de maneira brilhante:

“O destino e a liberdade formam um paradoxo, uma relação dialética. Quero dizer com isso que são opostos que precisam um do outro(...) Se não nos defrontássemos com destino algum – nem morte, nem doença, nem cansaço, nem limitações de qualquer espécie, nem talentos que se medissem contra essas limitações – jamais desenvolveríamos qualquer forma de liberdade”. Amanhã continuo.

 19-10-2004

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