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Peço a tolerância de quem lê para me
ouvir a falar de mim assunto insosso e auto-referente. Todo auto-referente
é chato... Mas hoje também é Dia da minha Criança.Lembro-me dela,
magra e tímida, olhos ávidos de ver e compreender, acumulando vivências
de perda enquanto vivia a normalidade de toda criança querida pelos pais
apesar do sofrimento de um lar que ficara triste pela morte de minha irmã
mais velha, aos cinco anos. Abençôo meus pais que fizeram o possível
para abafar a tristeza quando perto de mim. Mas quem está em luto de alma
parece respirar suspiros e suspirar tristezas. Algo de doloroso paira no
ar mesmo nos silêncios pulsa uma dor funda que a minha remota criança não
sabia o que era mas sentia.
Daí saíram uma asma, dores de ouvido e aos dez anos a mesma apendicite
que matou a minha irmã e cirurgia grande para a época
Minha criança era muito
quieta. Brincava sozinha e inventava aventuras imaginárias típicas dos
introvertidos. Recortava figurinhas das histórias em quadrinhos (eu era
um “Tarzan” já ruço de tanto roçar na “floresta”, ou seja, um
velho sofá no qual eu chocava uma figurinha contra outra e a que caísse,
perdia a luta. Meu “Tarzan estava tão gasto que se prendia mais fácil
no espaldar e custava a cair. Ganhava as lutas. Nem sonhava que um dia a
velhice feliz também é assim... Fui uma criança triste, um jovem
alegre, um adulto angustiado e sou um idoso feliz. Tudo conquistado.
Meu pai fumava muito e
jogava no jóquei o que deixava minha mãe preocupada. Mas era homem
manso, calado e bondoso. À noite dentro de casa, depois do jantar, no chão
da sala sem tapete, a minha criança
colocava a mão sobre umas cinco bolinhas de gude, com o cuidado de
deixar a que era “o meu cavalo” disfarçadamente (para mim mesmo) na
frente das demais. Sacudia as bolinhas sob a mão e largava. A que
primeiro batesse na parede em frente, ganhava a corrida. A mãe brigava de
eu ir dormir com joelhos, mãos
e braços imundos. Mas hoje eu sei ser porque aquele meu jogo imitava a
corrida de cavalos que encantava meu entristecido pai e sempre levava
parte de seu magro salário de funcionário público. Ela temia o vício.
(amanhã concluo). 12-10-2004 |