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Minha criança era suave, gostava de música precocemente, e vivia a fabular: “seu filho é bom menino porém não presta a menor atenção às aulas”, diziam as maravilhosas professoras do velho e falecido Colégio Fontainha. Hoje vejo que tinham razão. Fui assim a vida inteira o que me fez informado mas inculto. Em compensação, esse devanear característico dos cronistas e poetas é o que até hoje me sustenta e ajudou-me a criar meus três maravilhosos filhos. Tampouco estudava como devia, mas lia até o que não devia. Lia tudo, das histórias do Mandrake até os livros do Paulo Setúbal, isso já na adolescência e Dostoievski (o que mais me impressionou) na juventude. Estudo: pouquíssimo. Muito esporte e ouvir rádio eram minhas distrações. Ficar pensando, pensando, bestando, flanando era outra. Escrever versos num caderno escondido abrigava o grande segredo de minha criança. Ela existiu (existe?) nos anos da segunda guerra mundial e se impressionava com algumas coisas: uma visão que tive certa madrugada e até hoje arrepia; o noticiário da guerra ouvido de carona no rádio de meu pai ligado à noite; os holofotes a cruzar os céus de Ipanema ali pelos começos dos anos 40; os exercícios de blecaute nos quais a cidade inteira ficava sem luz e nem lanterna ou fósforos podíamos acender, treinamento para desorientar os submarinos nazistas ocultos mas presentes em nossas costas marítimas; outra lembrança forte de minha criança era a freqüência e a unção de minha mãe nas suas orações quando ia ao cemitério visitar o túmulo da filha e muitas vezes não tendo com quem me deixar, minha criança ia junto, se sentindo a protegê-la mas ganindo de vontade de ser protegido, o que ela, aliás, sempre fez com muito amor. Falava da filha com carinho e admiração pela menininha partida e até agora, sessenta anos depois, essa recordação ainda emociona este velho, vivido e competente coração. Mas a minha criança era interiormente linda, e eu a amava como amo até hoje nos momentos em que pede para vir à tona e chega, mansa, silenciosa e doce. Com suas bolas de gude, mania de soltar pipa, e de pescar com o pai, o amor pelo Fluminense, o gosto de ler, ouvir música, e de sonhar acordado. Da infância (ou por causa dela) até hoje aos 68 anos amei meus pais de modo crescente. A cada dia mais lhes sou grato em profundidade, e como lhes compreendo as taquicardias, os sustos com minha saúde, o humor suave e os silêncios fumados de um pai triste, a coragem de viver e de lutar de minha mãe e o legado de ambos, mistério perdido no tempo, provindo de muitas eras e gerações, certeza que me deslumbra e desafia o entendimento e acalma o coração. 13-10-2004 |