E se eu for para Manaus?

Pedrinho Girolamo dormiu pouco, acordou cedo, às cinco da manhã, estremunhado, engravatou-se, engoliu um café urgente e correu ao aeroporto. Tudo lhe pedia paz e descanso, mas a agenda infernal de um executivo vitorioso e bem pago era imperiosa. O avião em que viajará tem o destino de Brasília e, de lá, voa para Manaus. Ele, porém, como faz quatro vezes por mês, voa, há anos, somente até Brasília. Embora seja um cidadão hiper objetivo, racional, eficiente e que quase só pensa na família e no trabalho, antes de o avião subir, ainda na pista um pensamento inusitado lhe assalta a mente: “e se eu fosse até Manaus? Largar agenda, gravata, compromissos, pedidos, trágicos deveres, chatos mil, cafés da manhã com clientes, reuniões e simplesmente ludibriar a companhia aérea e descer anônimo em Manaus. Só com a roupa do corpo. E a pasta de executivo...”..

Descer em Manaus sem nem pensar nos vários remédios sentenciados pelo médico em periódicas e infalíveis revisões de sua ponte de safena, do diabetes e hipertensão- "você precisa tomar esses quatro remédios pelo resto da vida" -; ficaria a flanar, lá por Manaus, após comprar uma camisa na feira, uma calça barata e uma chinela, talvez um chapéu desses apertadinhos de compositor de escola de samba. Enfurnar-se num hotel de duas estrelas, parecer que sumiu, deixar não um susto, mas a família e os sócios livres dele e ele deles.Pelo menos por uma semana. Mandaria um telegrama, assim: "Não é seqüestro, não fugi com ninguém; quero me sentir solto, volto semana que vem".

E desanda a pensar, ele, o severo, o racional, o executivo impecável: “Pro diabo com os pagamentos da semana, quero ser anônimo, um caminhante mal vestido das ruas de Manaus, olhar o mercado, passar uma tarde a consultar-me com o majestoso Rio Amazonas, andar na chuva de tarde, ver o povo, dormir depois do almoço, vontade que nunca realizei, ir a um baile popular só para ver caboclas cheias de seiva, comer frutas de lá, almoçar peixe com o proibido pirão no restaurante do mercado. Livrarias, museu, casas de discos: nada disso! Passar defronte do Teatro de Manaus e, se houver ópera, correr no hotel, vestir o terno com a camisa de manga comprida suada e suja, mas ouvir os cantores. Depois, caminhar, sozinho e com Deus pelas ruas dadivosas e antigas de Manaus. Quem sabe, no dia seguinte até me meter numa briga de cais, dormir sesta em banco da praça, puxar conversa fiada com uma dessas senhoras gordas e honradas que têm seu carrinho de rua com balas de bacuri ou de cupuaçu. Ao zoológico! Sim, a esse eu iria. Que bom, cinco dias dando bananas pro mundo!”

Quando o avião baixa em Brasília, ainda vacila: “Vou ou não vou”? Aí  pega a pasta e, vencido, abandona o sonho de ver Manaus. Ainda por cima o sapato novinho está a lhe apertar os pés. Na boca, um sabor amargo. E as hemorróidas irritadíssimas com ele pela falta de horário para um descarrego normal..

 12-07-2005

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