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Existe um demônio que vive e se infiltra nos mais belos sentimentos de amor maternal, carnal, filial, até nas amizades. É um danado! Oculta-se na doação e age de maneira agressiva ou disfarçada. Ele se chama controle. Raro e desejável é o amor sem controle. Na ambivalência humana, porém, em geral o amor que foi feito para libertar, vive para controlar. O tema é fascinante. Pessoas há para quem a existência alheia nada mais é que a projeção das aspirações, desejos e até do muito amor que por elas sentem. Em nome desse amor esmagam, absorvem, envolvem, ocupam, encharcam, tomam posse, invadem, vivem, dedicam-se, abandonam-se a si mesmas, fixam, prendem, concentram, incumbem, encarregam, tratam, cuidam, assenhoram-se, conquistam, seduzem, tomam, habitam, possuem, usurpam, apoderam-se, penetram, introduzem-se, atravessam, insinuam-se, trespassam, metem-se, furam, abelhudam, substituem, impõem-se, sugam. Pode ser em nome do amor ou de uma ilusão de amar. Pouco importa o móvel, se amor ou desamor: o controle se dá, independente da nobreza da causa. Em geral, a causa até é nobre, o que não retira do controle seu caráter opressor. Outras vezes a causa é até protetora e salvadora. Mas é controle, daí a dificuldade de lidar com o mecanismo diabólico. Uma pessoa controladora é aquela que "quer que o outro queira o que ela quer que ele queira". É mecanismo capaz de "resolver" tudo pelos e para os demais, colocando-os, sempre, em estado de julgamento por quem (supõe que) sabe fazer tudo melhor. Em geral sabe e em geral faz, mas nem por isso tem o direito de impor a sua forma aos demais. O controle é um dos mais sutis e solertes mecanismos humanos. Por provir de quem ama, dificilmente é admitido como tal. Todos sofremos dele em maior ou menor escala. Ele esconde o mistério de nossa relação secreta com o poder em sua sempre recôndita forma de nos dominar. O terrível, portanto, do controle, é que ele nasce tanto da lucidez, quando da forma de amar de quem o exerce. E, na contradição, no enigma e no suplício inerente às coisas, o controle aparece como o mecanismo tenaz que junta as pessoas para sofrer. É amor para sofrer em vez de amor para ser feliz. 01-04-2008 |