Enamoramento 

             Está em grande auge em jornais e revistas falar-se de amor e de sexo. Isso, além do corpo e de celebridades. Esquecemo-nos, todos, de uma plataforma emotiva que se dá bem com o amor, dá-se sem ele, é inerente à paixão, mas vive perfeitamente e até é mais feliz sem ela: o enamoramento.

            Pensando em voz alta: a) há amor com enamoramento; b) há amor que perdura depois do enamoramento; c) há enamoramento sem amor, sensação igualmente deliciosa; d) toda paixão vem grudada no enamoramento, mas enamoramento não é; e) há enamoramento em estado puro; F) há enamoramento que perdura depois do amor. É sentimento tão especial, que salta de si mesmo para o amor, para a paixão e, ao mesmo tempo, basta-se; é um dos mestres do sentimento por ser independente e inerente ao mesmo tempo. Possui a mais elevada capacidade de compreensão.

            O enamoramento tem outra característica. Convive com a lealdade e a fidelidade. Em nada as afeta, altera ou ofende. É generoso. Um gostar concomitante e inexplicável. Não sei se é gasoso, líquido ou fluídico. Creio ser fluídico e mágico. Transporta para um território de profunda compreensão, que sintetiza tudo o que se pode sentir e ainda confere à vida um brilho especial, uma leveza de alma e um prazer infinito, que também se basta. Vive de algumas verdades, sem as quais fenece: liberdade interior; intensa admiração, afinidade, muito carinho gratuito, é uma Graça de Deus e tem a sua autorização para existir. Gosta muito do sexo, porém não precisa dele. Ama o amor, mas vive com ou sem ele.

            É um estado encantatório do ser, no qual este vagueia, enfim compreendido, em territórios de luz e paz, em paisagens adivinhadas muito antes, teor de outros planos astrais e encarnações, encantamento sem exaltação, magia sem truque, alegria natural, prazer fundo na presença do outro. Mas nem de presença precisa. Dá-se de longe como ao lado. Por pessoa conhecida ou desconhecida. Pode ser por obra, artista, vizinho anônimo, filho, neto, santo, homem ou mulher. O enamoramento é irmão da virgindade do sentimento. Existe, com a gratuidade do inexplicável.

            Quem aprender a amar o enamoramento será feliz sem fazer mal a outrem. Quem morreu sem enamorar-se, não viveu. Ele é a célula-tronco do amor: renova tecidos lesionados nas durezas da vida e da convivência. Feliz de quem está enamorado. Sobretudo se silenciosamente.

           Uma deslumbrante festa interior habita quem se enamora.

16-03-2005

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