Autor
consagrado, escreveu 10 livros de crônicas, dois de contos, um de
poesia, 11 biografias, quatro sobre comunicação e um ensaio,
tendo pronunciado mais de 100 conferências.
Artur da
Távola ainda encontra tempo para aulas em universidades, além de
comandar programas na Rádio e TV Senado, na Rádio MEC e na Rádio
Tupi, apresentando pérolas do cancioneiro popular e da música clássica.
Dirige, também, a revista Contato, abrangendo temas de comunicação,
arte e educação.
Atuante
nas comissões técnicas do Senado e com uma produção discursiva
no plenário, o senador Artur da Távola expõe suas idéias à
Foco com bastante clareza e objetividade.
É casado
pela segunda vez há 16 anos. Tem três filhos do primeiro
casamento e duas enteadas do segundo, que são casadas. "Elas
nunca foram propriamente minhas filhas, pois o pai delas é vivo,
é uma pessoa ótima, hoje é meu amigo e elas são minhas amigas.
Nunca precisei tratá-Ias como filhas, eu sempre as quis como
filhas do coração, mas nunca soube tratá-las como filhas,
porque o pai delas sempre foi extremamente presente, uma pessoa da
melhor qualidade. A minha esposa é educadora e trabalha nos meios
de comunicação ligados à educação. São três filhos homens
do primeiro casamento e quatro netos e meio, porque o quinto está
a caminho".
Seu
nome é Paulo Alberto Artur da Távola Moretzsohn Monteiro de
Barros. Parece nome de príncipe.
Meu
nome de nascimento é Paulo Alberto Moretzsohn Monteiro de Barros.
Depois, houve uma lei louca do tempo da ditadura, em que todas as
pessoas que fossem concorrer a cargo político com pseudônimo ou
apelido tinham que mudar o nome no registro civil. O Brasil já
teve essa loucura. Essa lei foi feita para o Lula, na época. No
caso do Lula deu certo: Luís Inácio Lula da Silva. Se a gente
olhar pelo lado da métrica, é um decassílabo com as acentuações
todas certinhas. No meu, deu um monstrengo, deu Paulo Alberto
Artur da Távola Moretzsohn Monteiro de Barros, tenho três
prenomes e quatro sobrenomes. Isso me traz confusões incríveis.
Logo que entrei para o Senado, o meu passaporte diplomático saiu
errado, saiu Artur da Távola, meu nome parlamentar. Eu fiz a
viagem e não reparei que na passagem estava Paulo Alberto
Moretzsohn Monteiro de Barros. Agora, imagine eu, na Alemanha,
explicando em alemão, que não falo, que aquele Artur da Távola
era eu. Suava e gesticulava tanto que me deixaram passar.
Além de
advogado, o sr. é jornalista, radialista, escritor, professor e
político. Com qual das profissões mais se identifica?
Não
sei, acho que elas são uma mistura. Esta minha pluralidade às
vezes me incomoda e às vezes me agrada. Mas tenho uma queda
especial pelo rádio, Eu acho que o rádio foi muito esquecido, o
rádio ainda é um grande veículo, como dizia o Roquete Pinto,
"o rádio é o livro dos que não sabem ler". O rádio
tem um caráter imaginário muito grande, ele se presta a muita
coisa na área da cultura. Então, pode ser que eu tenha uma
preferenciazinha pequena pelo rádio, mas não abandono o
escritor. Em outubro lancei meu 20º livro, um livro de contos. Eu
estou sempre escrevendo. O livro se chama "Em
flagrante", são contos, histórias, flagrantes de
determinadas situações. O conto se esgota no flagrante. É um
livro bastante diferente até do clima das minhas crônicas, que
é um clima mais leve. É um livro que diria duro, que opera na
realidade.
A impressão
que se tem é que sua paixão está no tripé literatura, comunicação
e política. Como o senhor acabou de falar, é isso mesmo?
É
isso mesmo. A pergunta está mais bem posta do que foi a minha
resposta. Literatura, comunicação e política. As três estão
juntas e estão separadas. Cada uma tem sua alma. É uma, digamos,
nada santíssima trindade.
Um dos
temas que o senhor mais aborda em seus pronunciamentos é a ética.
Falta ou sobra ética no Brasil hoje?
O
Brasil não é diferente dos outros países. O problema ético
acompanha o ser humano em toda sua latitude, faz parte do caráter
incompleto da personalidade do ser humano, que os católicos
primitivos chamaram de pecado original. Depois, a Igreja deu uma
característica de crime erótico ao pecado original,
diferentemente dos cristãos primitivos. O conceito de pecado
original é muito bonito. Agora, a história da maçã já faz
parte de uma outra visão da questão, mais simbólica, tem muito
a ver com as reflexões da Idade Média. O pecado original diz que
o ser humano vem ao mundo marcado por uma incompletude. A vida
também vem marcada pelo enigma, pelo mistério, pela incompletude.
Todo o esforço da humanidade é de compreensão, de harmonia.
Esse esforço tem começo, mas não tem fim. Diariamente, o ser
humano é convocado a buscar dentro de si harmonia, o bem, o que
levou o grande psicanalista Yung, no seu livro de memórias, a uma
reflexão que me toca muito: "Nada pode livrar-nos de um diário
tormento ético". O ser humano todos os dias se defronta com
um tormento ético. Eu desconfio muitos das pessoas que se supõem
do lado do bem, porque elas estão cortando esse conflito. Quem se
supõe do lado do bem, portanto, a vida é mais fácil, está tão
iludido como quem está do lado do mal. Já, quem está nesse
conflito permanente, retirando desse conflito as razões da sua
expansão interior, de seu crescimento, de seu amadurecimento,
essas pessoas são as que realmente ajudam o mundo a melhorar.
Senador,
o que o levou à política?
O que
me levou à política foi o jornalismo. Em 1959, fazendo
jornalismo, certa vez fui a uma favela, a velha favela da Maré,
de palafitas. Eu me defrontei violentamente com o problema social.
Na época, estava no final do meu curso de Direito, e esse choque,
esse impacto, me fez fazer um compromisso interno de que eu
dedicaria uma parte da minha vida a essa luta. Aí entrei para a
política. Fui eleito muito moço deputado estadual constituinte,
quando a capital veio para Brasília. Aí, o Rio de Janeiro virou
cidade-estado e precisou fazer uma Constituição. Fez-se, então,
uma Assembléia Constituinte da Guanabara, com 30 elementos. Eu
era muito moço, recém-formado, por sugestão dos meus colegas de
movimento universitário, apresentei minha candidatura, fui eleito
e comecei minha vida política. Em 64 fui cassado, com 28 anos, e
fui fazer parte de um grupo que estava sendo perseguido no Rio de
Janeiro. Tive que me asilar na embaixada da Bolívia, fui para a
Bolívia, fiquei lá uns meses, depois fui para o Chile, onde
fiquei quatro anos. Em 68, num pequeno período de abertura que o
Costa e Silva fez, fui um dos dois que voltaram, o outro foi o
Samuel Wainer. Eu estava louco de saudade do Brasil, dois de meus
filhos nasceram no Chile, eu queria tê-los em contato com o
Brasil e voltei. Logo em seguida, veio o AI-5 e fui trabalhar com
o Wainer no Última Hora, onde nasceu o Artur da Távola. Fui
fazer uma coluna e o Samuel achou muito mais prudente, já que eu
era cassado, que usasse um pseudônimo. E, sem que eu soubesse por
quê, me veio à cabeça o nome Artur da Távola. A partir daí,
aconteceram muitas coisas com o Artur da Távola e eu fiquei com
pena de matá-lo, então deixei que essa nova personalidade se
agregasse a mim, numa fusão que é grata para mim, é
interessante.
Por que o
sr. saiu do PSDB e depois voltou ao partido?
Eu me
afastei do PSDB, mas não saí do PSDB. Tive um momento de cansaço
por muitas razões acumuladas e neste período que me afastei tive
oportunidade de ver que, do ponto de vista doutrinário, a
social-democracia é a visão que eu tenho da política e que o
PSDB, com os problemas que existem, é ali que, de uma maneira,
pode-se fazer um debate social-democrata. E creio também que o
governo Fernando Henrique é da linha social-democrata e nem
sempre tem sido entendido como tal, somando todas essas questões
eu resolvi ficar no PSDB, mantendo minha independência,
eventualmente com discordâncias, mas sentindo que ali é meu
lugar, pelo menos por hora.
Que
avaliação o sr. faz agora do quadro político surgido nesta eleição?
Acho
que toda eleição tem uma taxa muito grande de acasos. Os
analistas políticos ficam buscando razões profundas. É claro
que existem razões profundas, mas existe também uma taxa de
acaso e uma taxa de personalidade, de influência pessoal nas eleições.
Nas eleições municipais o povo vota em determinadas pessoas em
função de características extremamente locais. Nós não temos
um grau de cidadania no Brasil capaz de fazer com que nas eleições
municipais um problema nacional seja colocado em debate e esteja
em questão. Veja o caso do Rio de Janeiro, por exemplo. De todos
os estados, aquele em que o momentâneo desprestígio do
presidente da República esteve mais alto foi no Rio de Janeiro. Vários
candidatos se apresentaram na linha "fora FHC", como o
Brizola, o PT e o PSTU. Pois bem, o Rio de Janeiro optou por dois
candidatos alheios a esse debate, o Conde e o César Maia. O Conde
é até do PFL. Nós não temos graus de politização profunda
que nos leve à idéia de que a questão partidária, a questão
nacional, está acima das questões regionais e, ao mesmo tempo,
de opções pessoais. Então acho que a eleição municipal é uma
mistura de características pessoais de quem concorre, com 10% de
questão partidária e uma outra parte de acaso, circunstâncias
momentâneas, que fazem a eleição ir pra esse ou aquele caminho.
O sr.
acha que muda o quadro em 2002 em função do resultado das eleições
municipais, com a vitória da Marta Suplicy em São Paulo e também
com a ascensão da Roseana Sarney? Parece que o presidente
Fernando Henrique tem algum preconceito contra a mulher no poder,
porque não nomeou nenhuma para ocupar um ministério. Como o sr.
vê a mulher chegar a um posto mais alto na vida pública?
Isso
é irreversível, está acontecendo e vai continuar a acontecer.
Eu fico com pena que essa ascensão não tenha vindo antes, seria
muito mais cômodo para nós. Acredito que a presença da mulher já
possa, no Brasil, chegar até à Presidência da República. É
preciso distinguir se isso vai acontecer com o elemento mulher ou
com o partido PT. A impressão que tenho é que o eleitorado
brasileiro, gradativamente, se comporta na direção de uma política
flexível de centro-esquerda, da qual a posição do Fernando
Henrique é uma síntese, ao meu ver, bastante clara. E vai
continuar assim. Se vai ser o PT que vai se aliar a partidos como
o PSDB e formar uma frente, ou se a frente será como a que foi
formada agora, os dias é que dirão. O fato novo é que o PT
descobriu, bastante atrasado, aliás, que sem política de alianças
não se vive na democracia. E o PT tem uma posição extremamente
farisaica, no sentido de que as pessoas do PT se consideram
melhores que as outras, são mais honestas, sabem do Brasil, são
sérias, defendem a questão social e se sentem superiores. É uma
atitude de dentro, até vendo a própria Marta Suplicy, percebo
que ela se sente superior. O PT vai aos poucos sair dessa posição
e compreender que a política é feita de alianças. Quando as
alianças são corretamente estabelecidas, o avanço pode se dar,
ainda bem. Na democracia é importante que haja toda essa divisão
de partidos. A novidade, ao meu ver, é o Lula estar dizendo que
deseja a política de alianças, é a ascensão da mulher e,
sobretudo, a politização crescente do povo brasileiro, que
deriva muito de algo que as pessoas rejeitam, mas que é
importante para essa politização: o 2º turno. Eu votei a favor
do 2º turno porque é uma grande conquista. No 1º turno, a
pessoa vota entre vários candidatos. No 2º turno, já é urna opção
política, onde as pessoas discutem, debatem, fica mais fácil
para um país pouco politizado como o Brasil. Discutindo entre
apenas duas pessoas, muitas idéias novas vêm à tona, é o
momento de politização do voto. Isso está ajudando, educando,
fazendo o País avançar.
Como o
sr. vê o governo Fernando Henrique em relação à cultura? Eu ouço
queixas enormes.
Eu
acho que o governo Fernando Henrique tem um bom ministro da
Cultura, um homem honrado, que vem fazendo um trabalho sério na
manutenção dos padrões culturais do Brasil. Tudo aquilo que é
cultura estabelecida, o ministro tem trabalhado bastante bem. Eu
tenho uma visão diferente, de que a cultura, os gastos com a
cultura não são somente para preservar a cultura dos segmentos
cultos da sociedade. Há um compromisso em estender a questão
cultural à população. E nesse sentido eu acho que a cultura
deveria estar no Governo ligada à comunicação, e não separada.
Aí, sim, nós teríamos condições de melhorar uma série de
instituições de comunicação que poderiam estar fazendo, sem
nenhuma alteração de seus interesses mercadológicos, muito mais
pela cultura. Há um caráter de divulgação cultural que está
muito parado no Brasil. Acredito que a seriedade e a qualidade do
trabalho do ministro Welfort são incontestáveis, eu apenas penso
que deveria se estender mais, que o Governo deveria ter um empenho
maior na extensão dos bens culturais para a população não
culta. Ao meu juízo, cultura é um bem de primeira necessidade e,
sobretudo no mundo moderno, com tantos apelos, é a cultura que
permite ao ser humano buscar suas identidades pessoais,
compreender os processos que se abatem sobre ele na sociedade,
sobretudo nas sociedades globalizadas, coletivizantes. Por tudo
isso, eu creio que a extensão dos bens culturais ao povo numa
escala crescente é uma tarefa, talvez, para o próximo governo, já
que do ponto de vista da manutenção dos padrões de cultura,
chamada de elite da cultura sólida, das bases da cultura
brasileira, o ministério, dentro de sua extrema limitação de
recursos, tem feito um bom trabalho.
E na área
social, com a violência aumentando assustadoramente, assim como o
desemprego, o que o sr. acha disso? Está faltando dinheiro ou
mais atenção para esse lado?
Não
falta dinheiro, não. Mas a tragédia brasileira é a questão
social. Eu digo que não falta dinheiro porque se nós somarmos o
esforço do poder público brasileiro, nós vamos verificar que
hoje se gastam cerca de R$ 100 bilhões na questão social. A saúde
leva R$ 36 bilhões, a educação leva R$ 40 bilhões, e se
somarmos com o que o País gasta com previdência, reforma agrária,
no Comunidade Solidária, veremos que o total se aproxima dos R$
100 bilhões. É muito dinheiro, porém, está aquém da tragédia
brasileira. Esta tragédia tem, do ponto de vista histórico, uma
diferença de classes sociais muito determinada que vem do fato do
Brasil ter sido colônia, de ter tido escravos, nós temos uma
tradição de grande reacionarismo, de grande conservadorismo da
comunidade como um todo. E um dado para o qual pouca gente atenta.
O Brasil aumentou nos últimos 30 anos em 70 milhões de pessoas.
Hoje são 160 milhões. E agora o censo seguramente vai dar mais.
O Brasil cresceu mais que uma França ou uma Espanha em 30 anos. E
cresceu dentro de uma estrutura extremamente injusta socialmente,
deixando de ser um país agrícola e concentrando nas cidades as
pessoas - hoje 70% da população é urbana. O País recebeu o
impacto de 70 milhões de pessoas, tendo que alimentar, educar
etc, ao mesmo tempo que o País passava por duas crises fortes do
petróleo, duas crises financeiras internacionais muito graves, não
tem tradição de justiça social, não incorporou segmentos
pobres à educação, esse é um esforço muito recente. Tudo isso
gerou uma massa generalizada, além do que isso se deu no momento
em que se tirou a mulher do lar e se colocou a mulher como força
de trabalho, retirando das crianças que nasceram nesse período
um contato pelo menos razoável com a mãe, que é essencial para
a formação dos padrões psicológicos. Também nesse período
houve a entrada violenta da droga na sociedade, houve uma evolução
brutal da tecnologia de armamentos, houve um empobrecimento do
estado como instituição organizada, o poder público no Brasil
foi saindo, foi deixando de poder atender as suas necessidades, o
Poder Judiciário ficou sem recursos, a polícia ficou sem
recursos, os hospitais ficaram sem recursos. Por tudo isso,
explode uma crise muito grave. Hoje em dia, em política, a gente
precisa compreender que o hoje é 20 anos atrás. Tudo o que
acontece hoje foi gerado 20, 25 anos atrás e tudo o que vai
acontecer daqui a 25 anos está sendo gerado hoje. O resultado está
aqui agora e não vai ser resolvido agora. Nesse ponto eu concordo
em profundidade com o que o Governo está fazendo. O Fernando
Henrique teve a lucidez de compreender que não dava mais para
resolver esse problema exclusivamente pelo Estado. Somente
fortalecendo as instituições da sociedade, elas, a sociedade e o
Estado juntos vão ter a capacidade, de resolver isso. Para
fortalecer a sociedade tem que fortalecer as instituições da
sociedade. Para isso, precisa-se de desenvolvimento. E o governo
Fernando Henrique está tendo a coragem de enfrentar esse
problema, inclusive de arcar com a impopularidade, mas está
deixando de enganar o povo com aquela morfina da ação
paternalista do Estado, como muitas vezes a oposição prega. O
problema é do Estado e da sociedade.
O Sr. tem
uma participação política muito ativa no Senado, é membro de várias
comissões, discursa sempre no plenário, emite muitos pareceres,
tem vários projetos de lei apresentados, tem programas na Rádio
e na TV Senado, além de dirigir uma revista. Como consegue
conciliar tantas atividades?
A
minha presença no Senado não é muito notória nem muito
percebida, também não é muito importante, sinceramente. Eu sou
apenas um senador que cumpre seu dever. Até porque, hoje em dia,
com essa estratégia da mídia dar notícia como espetáculo, eu não
quero servir ao espetáculo, eu quero servir ao meu país. E
servir ao espetáculo é participar do que a mídia noticia. Eu
participo de comissão que não é noticiada, de elaboração de
projeto, eu discuto a questão cultural e encontrei a
possibilidade na TV Senado de prestar um serviço coletivo. Eu faço
programas musicais, o programa "Quem tem medo da música clássica?".
Com isso, eu presto um serviço numa emissora pública, que tem o
dever de ter padrões culturais, de prestar serviço, como aliás
todas deveriam ter, pelo menos numa proporção razoável. Isso me
leva a ter um trabalho extremamente diversificado, a trabalhar
muito e a fazer, no fundo, uma ação política que seja a expressão
do meu modo de ser, do meu modo de ver o mundo. Eu fico um pouco
à margem do chamado primeiro plano da política, porque o meu
modo de ver o mundo me leva para esse caminho e não para o
caminho de certas aparições que são, de certa maneira, fáceis,
mas também, de certa maneira, voltadas exclusivamente para um
mundo de aparências e de superficialidades que não mudam nada.
Como o
sr., como jornalista político, tem visto estes programas de
televisão que apelam para a exploração da violência ao vivo,
da nudez feminina, do sexo?
Eu
vejo isso topicamente, eu penso que de, hoje em dia, desconsiderar
a comunicação como se ela fosse exclusivamente uma atividade de
empresa privada. A comunicação faz parte do processo de
socialização, de culturalização, de cidadania de um povo, como
faz a escola, um livro, uma instituição política. Então não
se pode ter num país um processo de comunicação desvinculado
dessas obrigações. E ele está totalmente desvinculado dessas
obrigações. Até no passado a comunicação ajudou muito mais o
País do que hoje em dia. É claro que ela tem aspectos positivos
na informação, na cobertura internacional, na cobertura
desportiva. Estão fora desse âmbito alguns trabalhos de nível
razoável em dramaturgia, às vezes. Mas, no restante, ela está
deixando de cumprir alguns dos pontos pelos quais o Estado
concedeu a particulares o direito de usar meios de comunicação.
E eles ficaram tão fortes que fazem o País crer que são
empresas privadas e não concessionários de serviço público,
que têm a obrigação, como o nome diz, de fazer um serviço público.
Eu penso que é muito mais grave o que a televisão está deixando
de fazer do que propriamente o que está fazendo. Ela pode até
ter lá seus pecados, desde que ela tivesse, ao lado disso, um caráter
construtivo paralelo. Por exemplo, na televisão infantil houve
uma queda brutal. Hoje em dia não se formam mais crianças com
padrões culturais ligados ao seu país, formam-se apenas crianças
consumidoras. Não existem mais Vila Sésamo, Sítio do Picapau
Amarelo. É consumo, consumo, consumo. Houve uma queda muito
grande na qualidade das telenovelas, não pelo sexo, isso poderia
até entrar, está no cinema há tantos anos, mas pelo fato de
todas as novelas obedecerem ao mesmo tema, mudam os personagens e
os diálogos, mas as situações são sempre as mesmas. Eu, como
analista dos meios de comunicação, acho que a televisão
brasileira viveu até hoje o seu auge no período entre 1970 e
1985. Foi o melhor momento da teledramaturgia, do telejornalismo,
da programação infantil, com menos recursos tecnológicos, mas
com muito menos produtos pasteurizados, como tem hoje em dia.
Como tem
sido recebida no meio intelectual a revista Contato, dirigida pelo
senhor?
A
revista Contato é feita pelo meu gabinete, em forma de livro e
sai quatro vezes ao ano. Ela se destina a professores, estudantes
e bibliotecas, baseada em três temas: ela chama-se revista
brasileira de educação, arte e comunicação. Eu baseei esta
revista num trabalho que havia sido feito pelo Darci Ribeiro,
quando ele era senador. Ele criou uma carta, de natureza mais política,
que ele enviava usando, de uma maneira honrada, conspícua e útil,
a gráfica do Senado. Então, eu peguei minha cota e resolvi fazer
o mesmo. Só que focando educação, arte e comunicação. É uma
maneira de dar utilidade à gráfica do Senado que ultrapasse o
interesse eleitoral. A revista é mandada para todo o Brasil e não
tem nenhum caráter eleitoral, propagandístico, nada disso.
O senador
Artur da Távola em 2002 toma qual rumo?
Eu não
sei, em princípio não estou querendo mais me candidatar ao
Senado. Em primeiro lugar porque, até lá, eu já estarei no
Parlamento há 16 anos. Depois, porque eu pretendo escrever mais
um pouco, com mais tempo, mais disposição. E em terceiro lugar,
por uma razão totalmente alheia a isso. Eu deixo na minha vida
uma parte muito grande para o destino. Eu não tenho a pretensão
de escrever 100% do script da minha vida. Tenho até uma
fascinação pelo acaso e acredito que nossa liberdade consiste em
saber o que fazer com o que o destino faz conosco. Então, procuro
muito olhar a fala do destino, deixar que as coisas tenham certa
espontaneidade, aconteçam de maneira própria. Aparentemente,
isso não é bom para a política, porque o político sabe que se
ele não ocupar espaço os outros ocupam. Mas como não tenho ambições
senão as de servir, sou fascinado pelo mistério que o destino
engendra. Dois anos antes do Fernando Henrique ser eleito
presidente, ele era senador e eu estava conversando com ele, que
disse que trabalhava muito aqui, que quase nunca estava em São
Paulo, que achava que não seria reeleito senador e que voltaria a
dar aulas em São Paulo. Dois anos depois ele estava eleito
presidente da República. Alguém diria que o Fernando Henrique,
desconhecido, que começou com 2% nas pesquisas, seria eleito
presidente? Foi eleito e reeleito. A vida dá muitas voltas. Alguém
admitiria que em pleno colégio eleitoral o Tancredo Neves
ganharia do candidato do Figueiredo? E que morreria e não
chegaria a assumir? Alguém imaginaria que o Sarney, no momento
seguinte, viria a ser o presidente da República por cinco anos? O
acaso é maravilhoso, eu respeito muito. Não que eu ache que está
escrito num livro lá em cima no céu, não é destino. É uma
misteriosa destinação biopsicofisiológica do ser humano. Eu
procuro sempre na minha vida fazer as coisas que tenham a ver com
essa minha destinação profunda. Eu não sei se elas vão ou não
dar certo, mas faço. Isso torna a vida mais agradável que a
voracidade do político de querer ocupar espaço, de ter uma idéia
de carreira.
Qual a
sua religião?
Todas.
Não digo isso por demagogia. Gandhi dizia que há tantas religiões
no mundo quanto pessoas. Eu tenho uma idéia que os religiosos não
vão gostar, de que as religiões são complementares. Cada uma
ilumina terrenos da espiritualidade que a outra deixou de
iluminar. E cada uma tem características próprias interessantes
que a gente deve perceber. Mas eu tenho uma ligação mística com
o mistério que eu realizo pessoalmente, não a formalizo numa
igreja determinada. Seria até mais fácil, mais cômodo e até
mais aplacador. Acho que é importante pertencer a uma igreja, mas
eu não consigo. Vejo caminhos e buscas interessantíssimas em
todas as religiões.
O sr.
acha que passado esse 2º turno da eleição municipal, a sucessão
do presidente Fernando Henrique será colocada na rua
imediatamente?
O
presidencialismo tem essa tragédia, no dia seguinte ao que o
presidente toma posse já se desencadeia o processo sucessório.
Eu sou parlamentarista, acho o presidencialismo um equívoco, uma
ditadura legal. Acredito que vai se discutir a sucessão cada vez
mais crescentemente. O Brasil tem um gosto muito grande por se
discutir o que é menos importante. Os grandes temas ficam sempre
para depois. O Brasil gosta de discutir CPI, Fla x Flu, brigas, há
uma busca do grotesco como informação. E não se discutem os
verdadeiros problemas. O Brasil tem 12 milhões de alcoólatras,
tem uma população afetada pelo fato de só agora começar a ter
condições de respostas educacionais mais efetivas, tem crise na
universidade, tem a violência, não resolveu o problema da
reforma da Justiça. Esses são os verdadeiros problemas, mas
sucessão, quem brigou com quem, isso aí é superficialidade.