Estátua Nele, Prefeito

Há uma semana encontro minha amiga Cristina Gurjão, que é franca e desabrida mas uma holandesa bem educada e discreta em questões íntimas, a chorar em plena e movimentada rua de Nova Friburgo.

-O que foi Cristininha?

-Por favor, coloque em sua crônica: morreu o último gentleman brasileiro.

Pronto coloquei e concordei: partiu para o Reino dos Esplendores, semana passada, Maneco Müller que os leitores conheceram como Jacinto de Thormes, o pioneiro de um colunismo hoje cada vez mais em moda (e distorcido) o mais amplo espaço dos jornais. Morreu não apenas um gentleman, como diz a Cristina muito bem sintetizando-lhe a figura, mas um jornalista de grande caráter e um ser humano especial.. O Rio já homenageou dois de seus seguidores de talento, com estátuas: o Ibrahim Sued e o Zózimo, cuja figura em bronze no finzinho do Leblon, contempla as duas praias irmãs da Avenida Niemeyer até o Arpoador. Não é possível, Prefeito, deixar passar em branco o nosso Maneco, e que seja algo bem próximo do seu Botafogo do coração, aliás o mesmo time do Prefeito. Por que não juntar, defronte a sede, ele, João Saldanha e Sandro Moreyra numa só e bela peça?

            Foi um carioca excelso: não esse carioca de exportação que se encharca de cerveja e chama as mulheres de gostosa, fala alto nos restaurantes e batuca nas mesas de bar. Mas o carioca charmoso e discreto, filho de um Rio ameno, bem educado e fino. Maneco Müller sabia ser a distinção em pessoa sem uma gota de arrogância.        Outro dia quem ficou com olhos cheios d’água fui eu. Vi uma foto de Cachoeiro de Itapemirim, na qual Tonia Carrero, emocionada, aparecia agarrada a um busto recém inaugurado de Rubem Braga, lá nascido e cá vivido, “caracoles”, um cronista como raros houve, há e haverá neste país. Ali estava toda a vida de Tonia, sua juventude, os homens que a amaram, seu saber ser mãe e avó, o ter vivido em glória a década feliz de 50, e 60, atriz arte hoje talentosa e linda. E ali estava o busto de alguém que sempre a amou e lhe reconheceu além da beleza, a inteligência e a independência de caráter. O valor de Rubem Braga é excepcional.

Espaço houvesse e eu teria muitas histórias do Maneco para contar, fomos colegas de redação por anos e amigos que se estimavam. Agora mesmo, escrevo debaixo de grande emoção e saudade de não haver visto o meu amigo há tanto tempo, afinal passei 16 anos mais em Brasília que cá neste Rio do meu amor.

Estátua nele, Cesar Maia. Foi o pioneiro do gênero de colunismo mais freqüentado e vitorioso na imprensa brasileira. E o Botafogo? Seu Bebeto vai deixar passar assim a lembrança do Jacinto Thormes? Vou reclamar com a Malu Cabral.

Com Deus Maneco querido, gentil honrado, educado, amigo de verdade. Exemplo de vida.

15-12-2005

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