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“A mudança constante da moda a equipara à vida e ao fluir do
acaso, da mudança e da novidade de cada situação, mesmo as
aparentemente repetidas. Isso a transforma numa fala de alto poder.”
Assim diz Barthes. Agora sou eu falando: já a modelo, por representar
situações nas quais o ser humano está envolvido no momento em que se
veste (sempre com a finalidade consciente ou inconsciente de representar
alguma coisa, situação, status
ou estado de espírito ou modo de vida), é uma atriz prodigiosa, pois não
necessita de signos verbais para exprimir o pretendido. O próprio corpo,
nela essencial, está contido, atado, submetido por drásticos regimes
alimentares às regras do desfile. Mas, ainda assim, a modelo expressa.
Quanto mais castra a sua identidade pessoal, mais
se afirma na passarela. São seres “quadro a quadro”, seres
misteriosos, fluídos, inconsúteis, corpos-mosaicos, andar de caubói... Fascina-me
o silêncio das modelos numa passarela. Elas gritam do silêncio e, assim,
consagram-se, à medida que se anulam diante do espetáculo da roupa e do
desfile em si. Esse diluir-se diante da roupa é um ritual dramático e
acentua o talento artístico.
Mas justamente nele (diluir-se), está a afirmação delas como
personalidades artísticas e como individualidades. Consiste,
portanto, a arte das modelos, na capacidade de passar mensagens em instâncias
de “sugestão” e de “anseios”, a serem “adivinhadas”,
“percebidas” por mecanismos mais desenvolvidos de busca e intuição.
O discurso fica para a roupa, esta, também ela, um sistema de significações
próprias, com o qual estetas da utilidade (os costureiros) transformam
movimentos políticos e existenciais, em traços de vestuário, no mais
estranho dos paradoxos: vendem signos revolucionários para as pessoas
mais conservadoras, e introduzem elementos de desarrumação das
estruturas cristalizadas, justamente naqueles setores mais cristalizados. Cada
pedacinho desfilante, distante, inacessível, fluido, olhando para todo e
nenhum lugar ao mesmo tempo, sem qualquer referência à platéia, estes
seres indiferentes e inabordáveis, mistura de anjo e demônio com ar de
antipática indiferença numa passarela, as modelos, eu dizia, ao alcançar
o máximo de impessoalidade, mais acentuam a própria individualidade artística
e mais lindas se tornam, e atraentes, misteriosas, mágicas. A modelo é a
fada do signo. Pena
terem pernas tão feias...
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