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Gente Com Amor
Desastrado
O ser que nos causa danos, num certo sentido, é alguém que sofre o mal
que nos faz. Escolhe-nos mais por desespero e espera de compreensão, do
que por maldade. Mas se nos encontra igualmente carentes e sem condições
de percebê-lo em sua necessidade, revolta-se ainda mais, ferindo de
forma aguda e intensa, por causa dessa frustração. Tal mecanismo não é
percebido pelo agressor. Domina-o e ilude-o. Fornece-lhe argumentos e
razões aparentemente lógicas para justificar seus sentimentos e impulsos
agressivos.
O que existe em mim que estimula a agressão do meu desafeto? - devemos
perguntar-nos sempre. Talvez a resposta seja: uma parte muito parecida
com a dele. Uma espécie de espelho no qual, ao olhar, ele nos vê para
não se ver. E para não se detestar, detesta-nos. Mas aquela parte é
nossa também. Nós a temos.
A vida está cheia de amor desastrado. Exigente, possessivo,
aprisionador. Amor que não libera, que prende, cobra, reclama, pede,
suga, ofende, machuca, obriga. Um amor que se utiliza do ódio como
mecanismo de sua manutenção ou exigência. É assim mas é amor, uma forma
desastrada de amor. E ódio também. E raiva.
Quem conhecer o próprio impulso de ódio poderá talvez aplacá-lo, ou
diminuir o seu efeito destrutivo.
Quem controlar o próprio impulso de ódio talvez aproveite a energia que
lateja dentro (como nas forças da natureza), canalizando-a para obras e
ações criadoras e positivas.
Quem dirigir o próprio impulso de ódio, talvez despeje a força dele em
atividade artística ou empresarial, desviando-a do objeto amado passível
de ser destruído.
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