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Não posso acabar o ano
sem deixar de aplaudir o show com patrocínio da Eletrobrás, “Bossa
Nova in Concert”, infelizmente apenas um e completo espetáculo levado
no palco do Canecão há duas semanas. Concepção e direção de Solange
Kafuri; direção musical do formidável Roberto Menescal e apresentação
sempre alegre e inteligente de Miéle. Por que só foi à cena uma vez?
Porque é muito difícil reunir por algum tempo todos os artistas responsáveis
pela bossa nova, os ainda vivos, cada qual com sua carreira, tantas vezes
no exterior. Vejam só: Carlos Lyra, João Donato, Johnny Alf, Leny
Andrade, Os Cariocas, Marcos Valle, Pery Ribeiro, Roberto Menescal, Wanda
Sá e Eliana Elias, além dos renovadores do gênero, os excelentes
Bossacucanova. Duas horas em que pioneiros da bossa e fundadores dela se
sucederam em cena, cada qual
com duas músicas. Uma beleza. Faltou incluir Doris Monteiro e Tito Madi
entre os pioneiros, ao lado de Johnny Alf e João Donato, estes nunca
propriamente bossa novistas, embora tenham brilhado no palco nessa noite.
Mas o Tito Madi, bom caráter como é,
lá estava na platéra a aplaudir os companheiros. Além
de refletir influências, hoje conhecidas por todos, e os anseios de evolução
de músicos de alta inspiração e qualidade, digamos, uma geração de
ouro dos finais dos anos 50 e começos dos anos 60, a bossa nova foi, também,
a música de um Rio feliz. Esse dado não pode ser esquecido. Eram tempos
amenos, respirávamos um hiato de liberdade no meio de tanta ditadura, a
anterior e a posterior (a de 64). Esplendia o período de Juscelino
Presidente, do Cinema Novo, da construção de Brasília, do Teatro de
Arena, do primeiro campeonato mundial de futebol, de um começo de
inter-relação musical entre os países, graças à expansão do rádio
por um lado e da indústria do disco por outro. Esse
Rio, que era feliz e sabia, gerou o prazer de cantar a natureza, de
libertar nossa canção popular de tantas sombras e amores infelizes e de
inovar em lirismo, descontração em letra, música e arranjos. É tempo,
também, de um começo de admiração por instrumentistas notáveis, antes
sempre esquecidos diante dos grandes cantores e cantoras do rádio. Por
isso, o citado show foi importante (só não gostei do nome, Bossa Nova in
Concert: deveria ser em português). Foi um encontro de raro valor,
reunindo mestres da música
que se conhecem, admiram-se, porém raramente se encontram, muito menos em
um só show. Quase 50 anos depois, a bossa nova vive, sobrevive e é
mundial.
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