Herói Cristão

Amanheci domingo misteriosamente triste e cansado. Há ingredientes: eu havia entrado em empatia havia, já, alguns dias com a agonia do Papa. Eu sofro de empatia, que o Dicionário Michaelis define de modo perfeito: (...)“Na psicanálise, estado de espírito no qual uma pessoa se identifica com outra presumindo sentir o que esta está sentindo.” Acrescento que o excesso de empatia é patológico, é enfermidade. Igualmente a ausência da mesma. Há pessoas que não sentem empatia por nada e ninguém. Vivem presas a si mesmas. Quem a sente demais, sofre além do que deve. Quem jamais a sente, é incapaz da compreensão do próximo. Pois eu sofro de empatia, confesso. Fica a fluir internamente um pranto calado. Na mesma semana da agonia de João Paulo II houve uma chacina brutal, cá no Rio, com trinta pessoas mortas ao acaso por desalmados, perversidade reveladora de um grau de anormalidade psíquica em certos segmentos da vida brasileira E também aconteceu a barbaridade do assassinato legal da moça norte-americana, através da iniciativa daquele marido sacripanta. Ainda pareço ver o olhar dela, bondoso e calado como a implorar vida sem poder falar.

Só não sou completamente doente por ser constituído da carga de empatia que sinto com o bem, com os bons e com os verdadeiros santos, com as realizações humanas, com a música, com a literatura, com qualquer pedacinho de natureza a lutar por viver, como essas plantas que medram nas fissuras de uma calçada ou ao pé de um muro.

Ademais , estou velho demais (mesmo jovem)  para aturar os “politicamente corretos”. O que li e ouvi, com conotação ideológica de que este Papa era conservador, deixava-me ainda mais triste. João Paulo foi o Papa menos conservador dos últimos séculos. A sua inflexibilidade em matéria litúrgica e canônica foi indispensável para manter íntegra uma Igreja  de dimensão mundial e enorme e com muitas tendências, por mais que em alguns casos deixasse de aceitar avanços da ciência. Fosse ele flexível e ajudaria a fragmentação de uma instituição que precisa de fortaleza em questões de fé,  para não se fragmentar. É rematado absurdo chamar de conservador (no sentido equívoco e pejorativo disfarçado de “direitista”) um Papa que pediu publicamente desculpas por intolerâncias da Igreja no passado, e que viveu a promover a conciliação entre povos, inimigo das ditaduras, peregrino da paz, que procurou a união de todas as religiões, lutou e foi exemplo necessário a uma retomada de valores éticos nos atos humanos, por pugnar pelos direitos humanos, por enfrentar em silêncio mas sem parar de agir, mesmo atormentado pelo martírio da dor física e das enfermidades decorrentes depois do atentado a tiros (e perdoou o ofensor). Ele foi, isto sim, um herói da Cristandade que o tempo se encarregará de dimensionar em sua grandeza.

 05-04-2004

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