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Agora que fiquei idoso, volta e meia desando a ler sobre figuras lendárias que antes só via em filmes da Metro, como Alexandre o Grande. No momento estou fascinado com as aventuras de Marco Polo em sua volta ao mundo. Pelo menos assim me distraio da onda de corrupção que envolve o Brasil e da gravidade do desmatamento da Amazônia Pois não é que em seu giro fabuloso ele encontrou um neto do grande guerreiro tártaro Gengis Khan, guerreiro como o avô quando necessário, mas, fora daí, um rei de vastíssimo império e incomensurável justiça e pompa, duas realidades aparentemente contraditórias. Ele não desamparava os mais pobres e não havia miséria nem fome entre seus vassalos. Foi, ao mesmo tempo, severo e bondoso, amado mais que temido por seu povo. Aliás, por seus povos. Era chamado o Grã-Can, mas seu nome: Kublai. Kublai Cã, que quer dizer o Grã-Cã. Prefiro escrever Cã em vez de Khan, pois Cã é uma palavra imediata, como um clarão, e é suavizada e sonorizada pelo til no A. Já Khan me lembra o Ali Khan, que nos roubou a Rita Hayworth e depois não agüentou a parada. Ou aquele norte-americano, arrogante, espertalhão e pretensioso futurólogo, o Hermann Khan, que fez, ao tempo da ditadura (que apoiava), previsões inteiramente erradas sobre o que seria o Brasil no ano 2000 e queria fazer um lago descomunal na Amazônia: um profeta sem qualificação... Mas o Grã-Cã era generoso e inteligente. Descentralizou a sua administração do império e sabia buscar a igualdade de tratamento a seu tempo, entre o baronato e a pobreza. No aniversário dele, dia 28 de setembro (vai ver que vem daí o charme do bairro de Vila Isabel), ele se vestia com uma roupa de ouro e seus 12 mil barões e outros altos dignitários, com roupa da mesma cor: ouro e seda dados por ele de presente aos sortudos. Para eles, o Primeiro Dia do Ano era de festa em todo o vastíssimo reino. O ano começava a 1º de fevereiro. O reino inteiro vestia-se de branco. Uma beleza! Outra ordem notável do Kublai Cã era a de, nesse dia, os barões, os outros nobre e o povão trocarem presentes entre si, a mostrar uma forma de igualdade independente do chamado nível hierárquico. De todo o reino chegavam, para o bom monarca, 100 mil cavalos e 5.000 elefantes. Que tal? Há muito mais deslumbramentos, mas acabou o espaço. Procurem as maravilhosas histórias de Marco Polo e deliciem-se com a leitura, agora que a Bienal do Livro incentivou tanta gente a ler. 29-05-2005 |