Lembranças De Dona Magdalena

Desculpem falar apenas na primeira pessoa, mas outubro sempre me traz esta recordação. A memória me traz alguns fatos de 1991, quando minha mãe partiu para o Reino dos Esplendores. Enquanto aguardava – eu não quis ver – prepararem o corpo, derradeira maquiagem de uma “atsef” (festa ao contrário), recebi amigos e amigas dela a chegar, parentes, ela havia sido um ser humano admirável e admirada por quem a conhecia. Dona Magdalena!!! Coloco três pontos de exclamação ao mencionar-lhe o nome, consigo ainda ver-lhe o porte altivo e sua fragilidade de mulher forte.
A morte tem o condão de revelar o valor de uma vida em segundos, e cada um desses segundos é portador de alguma lição que ela gostava de dar e dava, mesmo sem querer, pela dignidade, sobriedade e solidão, vale dizer, pelo exemplo.
Não estou aqui, porém, para elogiar minha mãe porque morreu há quase dezesseis anos, mas para dizer que, no recato de minha dor e na interiorização do meu sentir, mais que todos, eu poderia pensar com orgulho e egoísmo: sim, egoísmo, porque o que era teor dela em caráter e exemplo, agora me pertence mais que a todos. Fui seu cúmplice toda a vida e aprendi as admirações que lhe tributei. A morte nos permite essa apropriação sem inventário.
Meses antes, vidente me vaticinara que iria herdar forças dela quando ocorresse a sua passagem. Tudo isso me passava rápido na mente enquanto aguardava a maquiagem do corpo para o féretro. Admiração por sua vida dedicada em doses certas, primeiro aos seus, depois ao trabalho. Medito na minha incapacidade de atender, com atenção aos próximos a quem tanto quero, ocupado que sou pela vida pública. Obsessão de servir ao geral, com imperdoável falta de cuidado com os de perto. Nisso não a soube imitar. Mesmo assim é herança ética. Por outro lado, naquele distante 1991, via-a feliz por saber-me homem público e recordo o conselho: “Fique contra e lute, porém jamais faça ataques pessoais”. Isso se transformou numa realidade em minha vida. Logo ela, tão valente e brigona em jovem, viúva, gaúcha braba e brava, sábia e lutadora, a sugerir-me a temperança na política e no jornalismo, isso num país de política que só se destaca pelo seu lado doentio.
No momento em que escrevo esta crônica, como em quase todos os dias de minha atual maturidade, sua imagem me retorna conselheira: “Faça o que lhe cabe, não espere compreensão, agradeça o que chegar e tenha paciência que o reconhecimento virá, sobretudo quando sua atual vaidade não precisar mais dele e você bastar-se com o que faz e com o que é”.

30-10-2007

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