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Manchetes
Inesquecíveis
Antigamente
jornalismo era também uma arte de manchetes. Desde aquela célebre de O
DIA nos tempos em que era um jornal diferente de hoje: “Cortou o mal
pela raiz”, aludindo a uma senhora tarasca que castrou o marido adúltero
enquanto dormia; até a famosa manchete de sentido duplo e que muito
jornal vendeu: “Violada no Auditório”, quando Sérgio Ricardo quebrou o
violão com raiva das vaias num auditório daqueles festivais de música.
Já tem um tempo, li uma manchete linda em O Globo. Colocou no aviso
fúnebre: GREGORY PECK, O ROSTO QUE O CINEMA DEU ÀS CAUSAS NOBRES. Não
pode haver definição tão sintética e perfeita de toda uma vida de
artista e de uma estratégia de Holywood de sempre encontrar um belo e
nobre rosto para as causas que pretende defender, inclusive as nobres!
Mas mancheteiro é herói anônimo dos jornais, e vamos ficar sem saber
quem bolou essa jóia de frase, digna de um Otto Lara Resende, do século
XXI.
Em meus tempos de Ultima Hora, havia um Secretário de Redação que todos
adorávamos, o João Ribeiro. Bem humorado, espontâneo, gostava de andar
pela redação, um papinho com cada colega, em sua fala nordestina. Grande
figura! Pois num daqueles domingos bolorentos de redação, em que até o
Flamengo e o Vasco perderam e o jornal de segunda feira estava ainda sem
manchete forte, chega a notícia de que uma arquibancada repleta de
torcedores exaltados, despencara não me lembro onde, durante a
comemoração de um gol. João não atinava com a manchete. Contava o fato
em voz alta e nos pedia a inspiração para um título de vinte e cinco
batidas, isto é, vinte e duas letras que, com os espaços e o ponto de
exclamação, constituíam o tamanho exato da manchete. Ninguém atinava.
Cada sugestão levava vaias. Levou mais de duas horas a buscar e a
implorar uma frase salvadora da manchete. Nada!
Interrompo para dizer que redação antigamente era uma delícia, saborosa,
bulhenta, cheia de piadas, cada jornalista com suas manias e não essas
salas assépticas e sepulcrais de hoje, onde se um jornalista espirrar os
demais olharão com olhar superior de inglês esnobe, irritados com o
barulho insuportável que está a produzir.
De repente, ar de vitória, sorriso a ocupar-lhe o rosto largo, havendo
descoberto a manchete sem precisar de ninguém, João Ribeiro, adentra a
redação, declamando com orgasmos na voz, a frase imortal, ao mesmo tempo
real e de uma crueldade sem par:
MORRERAM GRITANDO: GOOOOL! Foi a manchete daquela segunda feira, nos
idos dos anos finais da década de 60.
06-10-2007
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