Marcelo Garcia

              Caprichosa, a vida: sexta passada eu acabara de ler o artigo de Luiz Garcia e tive vontade de telefonar-lhe para dar os parabéns por este e todos os textos que seu bom senso e sua forma clara e precisa têm obsequiado os leitores. Algumas páginas adiante, leio que segunda feira (ontem) seria (foi) a missa de Sétimo Dia do pai dele, Dr. Marcelo Garcia.

            Na condição de membro desse clã “desaparecente” de cronista da cidade, imparcialmente, preciso dizer que Marcelo Garcia merece muitas recordações e gratidões. Preliminarmente: como pessoa, foi um dos últimos exemplares do homem civilizado... Nos anos iniciais de médico foi dos mais modernos pediatras desta cidade. Há uma geração de pessoas entre 1935 a 1970 (e mesmo depois) a quem ajudou, salvou e tratou, em perto de 40 anos de clínica. Um grande médico.

            Em 1961, Carlos Lacerda o fez Secretário de Saúde do Estado da Guanabara e ele promoveu uma renovação completa na concepção administrativa da Secretaria. Criou um organismo descentralizador a SUSEME que deu flexibilidade à administração, eficiência, ação rápida. Foi uma revolução no setor igual à que trinta anos antes, Anísio Teixeira fizera na Educação do então Distrito Federal.

            Perto dos sessenta e poucos anos (a data não é exata), Marcelo abandona a medicina. Por que Marcelo? Respondia: “Porque há muitos e excelentes médicos novos e não tenho mais condições de me atualizar dada a rapidez das transformações. Já cumpri minha missão. Agora quero fazer outras coisas das quais gosto”.

            E fez: foi trabalhar com Roberto Marinho de cujos filhos cuidara na infância e a cuja família sempre acompanhou. Nesse período ficamos muito amigos, ele bem mais idoso que eu. Mas amigos de verdade.  Até confidente fui. Marcelo era alegre, afeito a compreender, amante da bondade, espírito conciliador, culto, estava sempre a par do melhor teatro, do melhor cinema e do melhor livro. Por falar em livro deu-me a honra de solicitar (e receber) o prefácio para um seu livro de contos pelo qual muito lutou. Anos depois a memória se lhe foi escapando; o temperamento mudando; até dissolver-se na sombra do silêncio e da memória e viver ainda muitos tempo nessa condição.

            O espaço acaba, com tanto a dizer. Mas uma verdade tem que ser afirmada: além de um grande ser humano, foi um benemérito da pediatria e da administração pública desta nossa querida cidade e do Brasil.

 22-03-2005

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