Minha Criança Está Ali A Brincar

Já que amanhã é o Dia da Criança, e, por acaso e sorte, um de meus três filhos nasceu nesse dia, peço licença para falar na minha criança, a que mora aqui dentro há quase 72 anos e não me abandonará jamais. Talvez com a morte eu até regresse a ela. Os tantos anos que dela me separam não a removem. Ela ali está, magra e tímida, a me olhar e ditar comportamentos e reações.

Minha criança esteve em todos os meus filhos e aparece nos meus netos. Ela se refaz da morte da irmã e abre os olhos para a vida, com a certeza de que veio ao mundo para alguma missão, embora sempre se considere inferior ao tamanho da mesma. Minha criança sente enorme saudade do pai e da mãe com quem o adulto já não conta, salvo no exemplo, na saudade e numa ou outra fugidia sensação de estarem, incorpóreos, a seu lado, mas sem se manifestarem.

Minha criança possui incomensuráveis solidões diante do mistério do infinito. Ainda recua diante do violento, embora não o tema, e ainda se infiltra em episódios de distração e inocência inexplicáveis num homem com minha carga de vivências. Minha criança ainda gosta de abraço caloroso, proteções misteriosas e de um modo de rezar que o adulto nunca mais conseguiu, tais a entrega e a total confiança no Mistério e na proteção de Deus.

Minha criança carrega o melhor de mim, é portadora de meu modo triste de falar de coisas alegres e de algum susto misterioso sempre que se impõe alguma expectativa. Minha criança é inteira, mansa, bondosa e linda. Eu a amo, preservo e dou boas gargalhadas quando a vejo infiltrar-se nas graves decisões de algumas de minhas responsabilidades adultas. Ninguém a vê, salvo eu. Ninguém a acaricia, salvo eu, que a estimo, procuro e admiro mais a cada dia e com quem converso histórias infinitas que somente a imaginação pode conceber no universo maravilhoso da fabulação.

Diariamente passeio com minha criança e estou muito feliz por cumprimentá-la, levar-lhe balas, nuvens, aquele cão da meninice, as canções de minha mãe e os carinhos de meu pai; por levar-lhe os presentes que eu ganhava de meu padrinho e toda a enorme vontade de Ser que então adivinhava para a minha vida. Vida que chegou, ameaça passar, e da qual não me arrependo. Minha criança adivinhou em seus sonhos o adulto que eu queria ser.

Talvez com menos tensões, mas igualzinho em meu modo de amar o viver.
 

 11-10-2007

Voltar