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O Corpo Como
Expresssão
O
que inspira esta crônica é o Carnaval com a explosão de imagens de
belíssimas mulheres e seus corpos (semi)nus.
Continuamos presos ao ideal grego do corpo como expressão. Lá, havia o
empenho de passar, através do corpo, a idéia do equilíbrio. O corpo
seria, ele também, uma expressão do "métron", a justa medida de cada
coisa, pessoa, ou sentimento.
Hoje, uma olimpíada vivida em escala mundial via televisão a cada quatro
anos, ou outras competições desportivas, levam o público a uma vivência
intensa de aspectos ligados a filosofias de vida que têm no corpo a
expressão máxima de virtude. O corpo representa nacionalismos,
doutrinas, valores em jogo no vaidoso tabuleiro político de todas as
nações. O homem ainda vive estágio competitivo de sua evolução.
O corpo (bem mais que o espírito) é o elemento preponderante de toda a
sociedade em que vivemos, da qual a televisão é importante janela,
significativa mostra que deve ser analisada (a TV) em vez de julgada,
ou, como é no Brasil, condenada, sem qualquer forma de julgamento e
muito menos de análise.
O corpo está no centro das difusas e díspares concepções estéticas de
nosso tempo. Nem bem, mais, pode-se falar de uma idéia do "belo em si"
como o imaginava Platão, para quem o "belo" era o grande pórtico do
"bem". O "belo" ajudaria a entrada no território do "bem".
O "belo" na sociedade-organização de nossos dias, filha da
industrialização, escapou da noção estética do "frui" (ou seja, do
prazer) e encharcou-se da noção do "utis" (ou seja, da utilidade). Vale
dizer, deixou de ser objeto de fruição, adoração, contemplação,
reflexão, expressões de valores, digamos, espirituais, e mudou-se para o
território da utilidade. Vivemos o tempo do belo útil (será fútil?)
funcional, ativo, parte externa e visão imediata e decorativa, enfeite
ideológico a proclamar virtudes do sistema produtor. O corpo não é:
serve para.
O belo contemplação, fruição, tentativa de beleza em si, transmuda-se no
belo aplicado (logo, útil) a formas industriais, à produção (e
consumo!...) em massa de bens materiais ou culturais. O artista se
incorpora à produção e o seu apuro estético não mais vai para a obra
isolada, e sim para a "arte-final" da peça publicitária. Não vai para a
sinfonia, mas para a sonoplastia... Deixa de pertencer à obra, e passa a
pertencer ao mercado.
04-02-2008
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