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O professor Tapajós, idoso, bela cabeleira branca, respeitado por todos sai da Universidade ao mesmo tempo em que a professora Aline, excelente mestra, dedicada, discreta, recheada de saber e modéstia, mas alguém que sabe e defende o seu lugar. Oferece-lhe carona. Respeitam-se e admiram-se. Daqui em diante Tapajós é T e Aline é A: T- E então Aline, você sempre tão radiante, com esse ar triste? A- Sabe o que é? Não consigo mais conviver com o desmazelo e maus modos, eu sei que é uma expressão antiga, essa de “maus modos”. T-Antiga é, mas, se dissermos isso em aula, vamos tomar uma vaia. A-E isso não o preocupa, logo você, o decano; o mais bem educado e respeitado professor da Universidade? T-Preocupa, mas você sabe que sou um contumaz militante da esperança. A- É? Então veja só: hoje –e não é a primeira nem será a última vez- em meio a uma discussão teórica que provoquei com os alunos, meia dúzia se interessou; a maioria ficou indiferente, a mascar insuportáveis chicletes com barulho, e, quanto aos demais, veja só: a três restou-me pedir que se calçassem: um deles tirou os sapatos e estirou os pés na direção de minha mesa; e não fizeram diferente algumas jovens alunas em suas roupas mínimas. Também tive que solicitar que guardassem sacos de batatas, latas de coca-cola, e, espantoso, tive de recomendar a um aluno que virasse a carteira na direção regular. Ele sentara-se de costas para mim, abusivamente. Assim não dá. T-Também estou impressionado com o desmazelo da média do alunado. Mas penso que eles não têm toda a culpa. Se descobrirmos as causas, será mais fácil corrigir. A-Eu sei que há causas profundas na sociedade envolvente. Mas me confesso cansada, depois de uma vida de estudos e dedicação não poder dar o melhor de mim e ainda ser olhada como jurássica. T-Veja o oposto, Aline: vou desabafar com você: já reparou na compostura de alguns colegas nossos principalmente esses professores jovens, cabeludos, todos “politicamente corretos”, perdidos diante do governo do Lula, em quem votaram, que dão aula de sandália, mal vestidos, e querendo fazer a cabeça dos alunos? Já reparou? A-Já, infelizmente. Neles, só livro a cara da roupa meio esfarrapada, pois ganham muito pouco. No resto você tem razão. E assim prosseguiram dois antigos, competentes e teimosos professores, dois santos a analisar o seu tempo, ele com esperança, ela com desalento.
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