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O Galo E Suas
Contradições
Paro perto do galinheiro e fico tempos a observar o galo. Dou-me conta
de que nunca prestara atenção devida em um galo. Ora, um galo! Bicho
silencioso, antipático, autoritário, galhardo, com aquele seu ar de
proxeneta, que nada faz a não ser galar as galinhas e ficar por ali,
depois, inútil, mas triunfante com seu andar de delegado de filme de
mocinho. Espanta-me saber que é símbolo da França por sua altivez. E no
Japão, pela coragem. Ele é uma contradição só..
Mas no fim do dia e, depois na madrugada, ouço-o chamar o amanhecer e
como naquela noite voejaram angústias sessentãs, inevitáveis nessa fase
da vida, o galo me repôs na esperança de que sempre haverá um amanhecer
e as sombras da noite, inevitavelmente passam. Ponho-me solidário com
ele e penso que Deus lhe deu essa boa vida de cafetão das galinhas para
executar de modo mais descontraído a tarefa de chamar a manhã e a
esperança. Já não o considero tão inútil e começo também a compreender
porque grande parte das igrejas do passado, tinha a figura de um galo no
alto de suas torres. Galo é augúrio, símbolo do milagre diário da
renovação da vida e isso é tradição simbólica que vem de Lucrécio, 90
anos antes de Cristo. No Islã ele representa a presença do anjo.
Câmara Cascudo. Com a capacidade genial de síntese que foi a sua marca,
diz : “O vitorioso Chantecler, cantado em mil páginas, possui larga
folha de serviços estranhos” . Ele tem razão: “larga folha de serviços
estranhos” pois tanto é símbolo que o Cristianismo adotou como o
precursor da aurora, logo da esperança e da luz, como o bicho também
serve para lutas diabólicas em rinhas, com ferocidade de tigre, para
gáudio de uns boçais que impotentes de coragem própria , compensam-se
com a do galo.
Muitas lendas tornam assustador e ameaçador o canto do galo fora de
hora. Dizem ser de mau presságio: alguns dizem ser sinal de moça que
foge, outros, como lá no Minho, em Portugal, é agouro, informa Câmara
Cascudo e acrescenta este dito popular: “Galo que fora de hora canta,
cutelo na garganta.”.
Mas fora do Câmara Cascudo me lembro de frases que o povo consagrou,
todas contraditórias. Umas lhe atribuem sabedoria quando dizem de algum
bocó que “ouviu o galo cantar, mas não sabe onde”. Vai longe a
simbologia paradoxal do galo: ”fulano é um galinho de briga”. Zico, um
rei das canchas também era galo, o "galinho de Quintino" O machão
brigador é aquele que “canta de galo”. Ao mesmo tempo o nosso populário
conta que enquanto o galo passeia a sua arrogância pelo terreiro, o
papagaio vai lá e "crau" nas galinhas..... “Salgar o galo” em linguagem
de pinguço é dar o primeiro gole de álcool do dia. “Ser galo” é ter
ejaculação precoce..., sabiam? Já “cantar de galo” é impor a vontade ou
valentia; e “cozinhar o galo” é ficar embromando, sem nada de útil
fazer.
Voltei ao galinheiro com mais simpatia pelo galo admirando as suas
contradições e a dificuldade para ser compreendido, coitado. Mas ele
estava todo pimpão, de lá para cá, as galinhas com o ar de que “soltaram
a franga”.... Fiquei sem saber se era por causa do desempenho sexual
dele.... ou o do papagaio da casa, que estava com um jeito muito sonso.
22-09-2007
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