O Menino E O Cachorro_Quente

Aproxima-se da carroça de cachorro-quente com jeito tímido. Quase não alcança a altura onde dezenas de iguarias produzem cheiros e visões que até tonteiam. Espera duas pessoas saírem e pede o seu, a voz tímida, coração aos saltos.
Completo? - berra o homem.
Quanto custa? O dinheiro dá? E derrama as moedas que conseguiu com muita aporrinhação. O homem nem responde e, para susto do menino, começa a cortar o pão. O dinheiro deu - pensa. E fica ali, prelibando cada etapa daquela promessa.
Chega mais perto ainda, estimulado pelo cheiro da salsicha e do molho, bem quando o homenzarrão levanta a tampa da panela. Fica olhando, e, logo, olhando em volta. Depois ri, a salsicha está bufando naquela fervura, estufou, até ela amarelou, meu, o que é que é? Antes, o homenzarrão espalhara o molho, cebola e pimentão a comandar o odor. Espalha maionese pelo espaço restante. E pergunta indiferente: Quétichupi?
O garoto concorda estupefato e sem ação, deslumbrado. Mas olha em volta.
O líquido rubro começa a mesclar-se ao amarelo claro da maionese. Milagrosamente, o pão recebe muito mais do que nele cabe. Em seguida, é a batata, batata palha, crocante, amarela, quase a tapar a salsicha. Apesar de seus modos rudes, o homem ajeita delicadamente todo o conteúdo nos limites modestos do pão já encharcado do molho. E, quando nada mais parece caber, dá-lhe estimulante banho de ervilhas verdinhas e macias. Para consagração da obra prima, borrifa queijo ralado...
Entrega o monumento ao menino, que mais outra vez olha em volta e para trás. Parece não acreditar, mas conseguiu. Será que vai dar tempo? Suas mãos são pequenas para o tamanho do pão. Segura-o, contudo, e atento, muito atento, fica por ali, não se afasta demais. Na primeira mordida, gostosa de entalar, mela-se todo. Dessas mordidas, só possíveis na infância, o medo embora. Logo desarma completamente, mordendo arte, sabor, colesterol. O cachorro quente que só a imaginação brasileira poderia criar.

27-09-2007

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