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Conheço Márcio Cleombroto há uns quinze anos. E, como nome é oráculo, o pai dele, Professor de História, lhe colocou ao nascer esse Cleombroto, que era o nome fictício usado pelo grande guerreiro libertário, Garibaldi, herói na Itália, herói no Brasil. Desde jovem, o Márcio sempre gostou deste cronista. E sempre foi um rapaz, hoje pai de dois filhos, da melhor qualidade humana e moral. Gostava e gosta de conversar comigo, porque eu discordava dele serenamente, sem agredir, e reconhecia os furores que o idealismo jovem provoca no ser humano. Claro, fez-se militante do PT. Adotou todas as suas causas: passou pela fase do moralismo vingador; passou pela fase de considerar a si e aos companheiros melhores que os outros, mais honestos e mais puros; sempre acoimou pejorativamente de neoliberais as demais forças ou, na outra ponta, comunistas fracassados. Também andou metido com a esquerda radical da igreja católica. Nossa amizade continua firme a despeito de divergências em vários pontos: principalmente na questão da social democracia e do parlamentarismo, que defendo. Em síntese: para mim o alvo é a democracia; para ele, o socialismo. E assim sempre conversamos de modo cordial. É, aliás, muito amigo de um de meus filhos. Márcio emocionou-se às lágrimas com a vitória do Lula. Ele desculpou e explicava por que Lula repetia na economia o modelo deixado pelo governo anterior. Brigou com alguns “companheiros” por isso. Disse que o episódio dos dólares na cueca foi um acidente, mero episódio individual. Negou a existência do mensalão como instrumento de compra de votos no Congresso. A CPI das sanguessugas e as alianças de Lula com figuras que sempre execrou, foram por ele consideradas necessárias. Quando eu lhe dizia que a Heloísa Helena dera provas de coerência, respondeu-me que era uma radical tresloucada. Enfim enfrentou os últimos três anos fiel e confiante nos valores do PT. Era mais PT do que Lula, sabia argumentar e defender suas razões doutrinárias. Ia votar em Lula. Semana passada, fomos almoçar eu, ele e o pai, e, com lágrimas nos olhos, me disse: “Continuo a confiar no PT e seus propósitos, mas, a partir do momento em que Lula apareceu na propaganda eleitoral sem sequer colocar na tela o nome do partido e da famosa estrela sobre fundo vermelho, vi tudo, como num clarão”. E prosseguiu: “Mestre Artur (chamava-me de mestre, pela idade), nunca sofri tanto. Quando vi o Lula eliminar o PT de sua vida, de sua propaganda, descobri que hoje só quer ser um líder carismático-personalista e isso é o perfil dos ditadores. Adeus PT, adeus sindicalismo. Vai acabar como um sub-Chavez, aquele da Venezuela. E vai destruir tudo o que o Partido construiu, com méritos, até agora. Agüentei fiel até aqui. Joguei a toalha. Porém continuo PT. Pode ser que um dia o partido se recupere do que agora não percebe haver sido um golpe contra o que foi, o que é e não sei se será. No Lula não voto.Prefiro permanecer PT.” 22-08-2006 |