O Torcedor esse Adorável Possesso

Com a proximidade do Natal, Brasil e mundo mergulhados em tanta dor, decadência, maldade, corrupção e guerras, este cronista resolveu dar-se um descanso de tanto se preocupar com o entorno. E o Internacional foi a minha válvula de escape, isso desde o domingo, quando este notívago acordou às oito e quinze da madrugada para ver a partida dramática. E, sem ser torcedor do time gaúcho, vibrou eletrizado.

Vendo, na terça feira, o desespero feliz, o êxtase transtornado (alegria também transtorna. E nisso é diferente da felicidade...) da torcida do colorado, fiquei a pensar nessa figura ao mesmo tempo patética e linda do “torcedor”. Começa pela palavra. É quem busca torcer o real, para que este se ajuste às suas verdades interiores. Quando coincide a torcida com o resultado, um estado de indescritível loucura dele se apossa. E ele, de reles torcedor, passa a ser um “possesso”, isto é, alguém em delírio, possuído por aquela  espécie de demônios brincalhões ou agressivos, os mesmos que se infiltram em todo carnaval. Assim é o torcedor

O grande paradoxo da patética alegria pela vitória desportiva é a sua gratuidade. Fixemos bem esta palavra: gratuidade. O fato de ser um delírio de alegria por algo sem nenhuma significação e que, em pouco tempo, desaparece,  embora entre para a história, explica tudo: aquele sentimento é gratuito. Gratuito vem de Graça. Graça é uma das mais profundas palavras e conceitos desvendados pela religião. A Graça de Deus é um dom especial, natural e misterioso, de que cada ser humano, ou alguns deles, não sei, é dotado ao vir ao mundo. Pode estar presente em reis, menestréis ou vagabundos.

O importante é a gratuidade desse dom, isto é, nada mais ser do que é, sem explicações. Paradoxalmente, a explosão profana de delírio pela vitória desportiva é da mesma natureza de outros dons gratuitos, alguns sagrados, por isso misteriosos, como a santidade, a genialidade, o talento especial, ofertados de “Graça” para algumas pessoas por Deus, via natureza.

Em nome do núcleo dessa gratuidade, até as superficialidades advindas do campo desportivo, algo que se esgota em si mesmo e sem que o mundo mude por causa disso, até essas superficialidades, eu dizia  estão tocadas por uma chispa divinatória. Chispa que transforma tudo em beleza, poder, ingenuidade, inocência alegria, catarse e loucura advindas do fato de ser o torcedor apenas um ser humano, e, como ser humano, um eterno subordinado aos mitos profundamente arraigados no inconsciente coletivo.

20-12-2006

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