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Fico a pensar em todas as pessoas que estão a trilhar o doloroso caminho da descoberta dos impasses com o ser amado; todas as que estão descobrindo defeitos, desencontros, impossibilidades de encaixes e de suplementação nas relações. Penso nos que estão tentando gostar, já não mais conseguindo. Sofro com os que colocam flores e esparadrapos na própria decepção ou no cansaço de suas relações rotinizadas, robotizadas, endurecidas, cristalizadas, congeladas. Imagino a mulher descobrindo-se em plenitude e liberdade diante de um homem que a desejava passiva e submissa. Penso no homem aberto e idealista, descobrindo as ambições burguesas de status ou segurança da mulher, num mundo de injustiça social e tanto por fazer. Imagino a constatação dolorosa da afinidade sexual que já não chega, ou se vai. Sofro com a convicção crescente de que o impulso de amor anterior não foi substituído por sentimentos verdadeiros. Corrôo-me do ácido do desamor. Sangro com os ódios surgentes como face oculta da relação antes amorosa. Rasgo-me com as descobertas dolorosas de que o antes amado é a antítese, o oposto, o outro lado. Padeço com a diferença do ritmo de evolução abatendo-se sobre os amantes do meu bairro, do meu país e do meu mundo. Vejo andamentos e aquisições vitais diferentes a motivar o desencontro entre tantos amores antes parecidos possíveis. Para onde vai toda essa energia amorosa que se acaba, diminui ou deriva? Em que jardim moram os momentos de amor impedidos pelas diferenças entre os casais? Como encontrar o potencial amoroso que se recolheu, derivou, foi introjetado ou projetado num filho, numa causa nobre ou numa profissão? O mundo está cheio de órfãos do amor quase possível. A cidade inteira está chorando pelos amores jogados fora. Como não são biodegradáveis e não se dissolvem, esses amores estão por aí, ganindo nas noites, ou escorrem, melífluos, do olhar carente da gente que passa na rua. Sim, há milhares de olhos mendigos pelas ruas. Eles estão chorando pela perda da possibilidade de ter dado certo. Eles também me assaltam, desesperados.
13-04-2005 |