Papo Cabeça

A mente opera por dois caminhos: mitos e idéias. Como vivemos sob o império do racionalismo (e não da razão), o mito foi relegado a ínfimo plano. Hoje ele é, até, sinônimo de mentira. Mas o mito é a verdade mais profunda da mente. Esta é tão profunda e complexa, que não se expressa através de conceitos e idéias, e sim através de mitologemas.

A comunicação possui dois incursos, dois núcleos que a determinam: o incurso ideológico e o mitológico. O incurso ideológico deriva do pensar dominante. O pensar dominante comanda tudo, inclusive a forma pela qual pensamos e, até, a nossa fala. Indivíduos de classes sociais diferentes falam diferente, logo pensam de acordo com o repertório utilizado para falar; pensam, portanto, diferente.

A comunicação tem, porém, outro incurso. Assim como a ideologia nos pensa, a mitologia nos sabe. Por quê? Porque para a mente expressar tudo o que alcança, porém não define, ela só tem o mito, que se expressa através de símbolos ou linguagens cifradas (arte).

Não há setor da existência no qual o homem não busque a ilusão. Olhemos em torno: o homem busca a ilusão na sociedade industrial, nas religiões, na economia, na revolução, na arte, na atividade material construtiva, nas atividades espirituais.

A ilusão é a forma hipnótica da utopia.

Se a ilusão é a matéria-prima do incurso mitológico do ser humano, por que supor que qualquer atividade ficará a ela indiferente ou hostil? Quando alguém ouve uma sinfonia, o que está buscando? A ilusão de progredir através de um contacto estético profundo, logo a utopia de uma vida melhor. Ilusão, até no seu sentido etimológico, quer dizer luz muito forte e ofuscante. Ilusão é isso: uma aparência. O mundo é feito de aparências, de formas! Toda atividade humana está cercada de ilusão; a ilusão é a utopia sem correção monetária...

Está todo mundo buscando a utopia e ela se expressa através das várias ilusões, de que somos constituídos. A ilusão é um súbito deslumbramento. Permite ver, ao mesmo tempo em que ofusca. É, portanto, mitológico, porque é algo que só se vê no rápido instante em que brilha, para logo desaparecer.

Será, a vida, outra coisa senão uma ilusão?

Por isso, talvez, divertir-se com as várias ilusões de que é constituída a vida, seja o afã do homem. Se assim não o fizer, ele viverá berrando de angústia ou pavor.

Eu Hein! Estou começando o ano com um papo cabeça! Que Deus não me faça enrolão, logo agora que estou mais velho.

 06-01-2005

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