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Em
muitas famílias, há pessoas-eixo, em torno das quais vivem os demais,
respeitando-as, adorando-as. Com grande naturalidade brigam com elas e até
se aproveitam delas. Mas em quem mais confiar tão absolutamente? Por
virtudes especiais as pessoas-eixo são elo, chiclete, amálgama, visgo de jaca ou de abio. Elástico
invisível prende os demais da família a elas. E chegam todos fora de
hora, fazem deliciosos pedidos impossíveis, mas factíveis, ou lhes fazem
profundas confidências, quando o aconselhamento se torna necessário. O
lindo desse elo é ser invisível e talvez imperceptível como elo, como
eixo, como imantação ou amálgama. Em torno delas, alma alguma amalgama
algum mal... Tais pessoas imantadoras conseguem prodígios de tempo para
todos os da família. São as mediadoras perfeitas nas horas de crises, são
arrimo e despertam uma forma de amor que não se nomeia até hoje, por
falta de adjetivação precisa. Para ser uma pessoa-eixo é necessário
doação sem dependência. Independência sem indiferença. Paciência, mesmo quando no
limite. Silêncio em relação aos próprios sofrimentos. Compreensão
infinita e capacidade de reconhecer, antes, em si, os defeitos alheios. Elas
pertencem a uma casta superior de pessoas indispensáveis ao vínculo
familiar. Ao mesmo tempo, sabem falar ou calar. Sabem ser assim, sem
quererem ser assim. Conhecem mecanismos alheios ao ser humano médio em
geral, como compaixão, sentimento do outro; identidade, mais que
identificação, esta só com quem sofre ou com quem ama. Ao lado disso,
identificação generosa com a humanidade como um todo; bondade sem
fraqueza, cultivo de ideais a despeito de desilusões e, acima de tudo,
caráter, no sentido de “caractér”, isto é, uma forma ética
que não se nutre de
auto-elogios para se impor naturalmente, como um halo que sai delas e
envolve os demais. A convivência
no lar de pessoas-eixo sempre representa um momento de felicidade e
segurança, até mesmo em dias difíceis, ou quando há discussões entre
parentes e amigos. Ou quando ninguém percebe que foi feliz ali. Nada
disso é muito verbalizável, por mais que o cronista aqui se esforce por
caracterizá-lo, mas é uma forma de amar com exata medida entre dar e
receber e nenhuma exigência desse recebimento. É um dom gratuito doado
pelo Mistério e construído através de uma vida exemplar. Sim, nelas, a
bondade convive com a energia. Mas é indispensável inteligência e
cultura. Infelizmente, sem essas duas características seletivas, a pessoa
pode ser muito boa, um amor, porém jamais será o eixo de equilíbrio de
seu grupo familiar. E, na maioria dos casos, esse grupo familiar não se dá
conta da importância e do valor intrínseco dessas pessoas. Apenas
usufrui. Quem
amadureceu para os eflúvios daquele amor, ou, mesmo, quem perdeu uma
pessoa-eixo, irá lembrá-la dia a dia, momento a momento, em frases,
pensamentos e atitudes, a propósito de quase tudo. 22-12-2004 |