BOLA, SINUCA, BILHAR

A Luiz Andrade Ribeiro
Autor do livro Sinuca Como Jogar e Vencer

Glabro mistério da precisão

geometria do quase possível.

Emocionada destreza muda,

poema embuçado na lógica.

 

Seco decidir certeiro,

gelada concentração de lince,

toque ascético da implosão emotiva

sanha do movimento oculto.

 

Fálus afiado, o taco dá teco

em coloridos testículos ávidos

de penetrar fendas sem ovário.

A bola é bólide: perfeita e infecunda.

 

Silogismos do impecável cálculo,

lógica formal da mente em jogo,

ação sem teoria, cirurgia sem ablação,

abstração do tempo, espaço domado.

 

Xadrez sem sangue em universo de bilhas,

estratégia sem guerra, sadomasoquismo.

Assombro de vitórias introvertidas

paciente trigonometria, exatidão do à-toa.

 

Objetivo de homens tristes, tragos e charutos.

Expectantes jacarés de salões enfumaçados.

Brinquedo adulto farto de sofreguidão,

sacerdócio do gesto, habilidade obsessiva da mão.

 

Disfarce lúdico do insepulto fel

a escorrer estetizado para o ralo caçapa,

gruta da transformação alquímica

de raiva e rivalidade em respeito.

 

Bico, batoque, fancho, pinguelim,

espirro, bola da vez, charuto, giz,

punho, sola, trancar, tangolomango,

repique, totó, talco e tacão.

 

Ofídica e prática a sinuca é só.

O bilhar resvala sonso para revelar.

O olhar perscruta a hipótese.

Verde, inexorável e noiva,

a mesa não perdoa.

Artur da Távola

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