Sou o que fui falado

 Mais do que ser eu,

 sou o que fui falado

quando me perdi de mim.

O ser resulta do que foi falado

por classe social, pais, escola

ou o que aprendeu a calar (falar)

no momento (qual?)

em que se perdeu de si.

Salvar-se é descobrir

o trágico e derrisório instante

em que a criança se perde de si mesma,

para ser o que dela os demais pretendem.

 

Há milhares de pessoas presas,

doentes, perversas, maléficas,

ou simplesmente maldosas

sofridas ou não realizadas,

que vivem a vida como tragédia

mirim mas cotidiana

porque se perderam

da unidade fundamental

de seu ser em criança

e para não chorar hoje

cospem ofensas, dores,

das quais não se libertam.

 

Missa de Requiem

para o que poderiam ter sido

em dádiva, amor e construção.

 

A elas, como a nós,

ternura e compreensão.

Artur da Távola

 

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