Renascimento

Nasci aos 03-01-1936. Morri aos 27-8-2005, às cinco e pouco da tarde. Vivi quase setenta anos. Segundos depois, renasci. Um choque de 400 volts dado pelo desfibrilador de meu marca passo corrigiu a arritmia que poderia me haver matado. É um choque violento, assustador e milagroso. No instante seguinte, impactado embora, sentia-me bem.

Telefonei para o cardiologista. De imediato mandou-me ir para o Pró-Cardíaco. Troquei de roupa, já calmo, chamei o táxi e fomos para o hospital. Entrei e fiquei a primeira noite na Emergência. Exames iniciais, tudo bem. O Dr. José Carlos Ribeiro examina-me o marca-passo e constata o choque, estranho, num período de relativa calma, em meio a pequenas taquicardias que se reduziam naturalmente, sem a necessidade do aparelho. O desfibrilador funcionara tudo estava normal.

Cuidadoso e cientista, o meu cardiologista, Dr. Evandro Tinoco, quando eu pensava voltar para casa, ponderou que não me daria alta, sem antes descobrir a razão da súbita fibrilação, aparentemente sem causa. E sentenciou: “Meu dever de médico é deixá-lo internado até descobrir alguma causa oculta nesse episódio”.

 Bufei. Não bastasse o susto, toda internação na unidade coronariana é assustadora e depressiva. Felizmente compreendi em seguida o cuidado dele. E agradeci em silêncio, o poder estar a merecer tais cuidados.           No dia seguinte, já no quarto da Unidade Coronariana, devidamente monitorado com fios e soros, submeti-me, o dia inteiro, a uma série de exames. Até nucleares. Achou-se uma pequena isquemia no lugar onde há um ano fora colocado um stent (anel ou mola, não sei bem, que abre a artéria). Uma anormalidade que às vezes o organismo cria no lugar do stent (a rigor, um corpo estranho) causara o pequeno estreitamento da citada artéria..

            Submetido ao cateterismo no dia seguinte, confirmou-se o estreitamento. E, ato contínuo, as mãos abençoadas do Dr. Nelson Mattos colocaram, através da artéria femoral (angioplastia), outro stent, com um remédio novo, dentro do local do stent anterior (vejam o prodígio da medicina de hoje). E a dilatação se fez, salvadora. Mais dois dias no hospital, em observação; Uma bronca do alegre Dr. Constatino, meu amigo, porque eu reagia a certo remédio; um exame de esforço físico com a doce figura do Dr. Ricardo Vivacqua, e eis-me aqui, renascido idoso e com severas recomendações e novos remédios.

            Toda essa auto-referência e alguma lamentável auto-piedade, é para assinalar a maravilha da medicina moderna, a felicidade de poder contar com médicos e hospitais de primeiro mundo e para uma vez mais pensar em nossa responsabilidade pelo povo pobre do Brasil, a maior parte do qual, não tem como tratar-se, comprar remédios e morre da maior causa de óbitos no País: a doença coronariana. O mais é, no plano místico que me habita, agradecer a Deus, a Jesus e à minha querida Santa Vicenta Maria; a meus anjos da guarda humanos e aos do céu, tudo isso sem me esquecer da falange espiritual do Dr. Bezerra de Menezes, sincrético sou.

 06-09-2005

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