Retrato Falhado

Seu tope é de altaneira indiferença. Senta-se em mesas fora do foco, oculta-se em óculos enormes, passa etérea, em permanente ar de tédio ou superioridade, não distingo. Algo de elitista e de sofrido misturam-se naquela face. O porte é de princesa no exílio e a indiferença é aquela típica das classes dominantes. A tristeza deve vir de fracassos amorosos.

Bonita? Quase. O corpo perde em flexibilidade e curvas, a carne já está quase triste como ficam certas mulheres sem a tonificação dos hormônios masculinos. O charme, porém, é real e, acima dele, é atraente o mistério daquela solidão que se move com elegância de garça entre as mesas do restaurante do hotel. Acomoda-se sem jamais se espreguiçar ou usar modos desajeitados na cadeira confortável de beira de piscina para ler de modo compulsivo o romance que leva nas mãos. Mulheres desse gênero e tipo estão sempre a ler romances volumosos e constantes.

O hábito da leitura adiciona-lhe outro fator de distanciamento e orgulho que nos deixa a quilômetros de distância. Vez por outra, um longo suspiro perceptível apenas à observação de cronistas argutos. Óculos escuros enormes levantados acima da testa, ela os acomoda no cabelo, não especialmente belo, porém bem comportado e sintonizado com a distinção geral de seu porte. A postura para ler parece confortável, sem perda de classe. Nada obstante, os pés são grandes, mas nem por isso contaminam seu talhe de rainha destronada, até porque cronistas elegantes e cavalheiros não têm o péssimo hábito de olhar os pés das mulheres.

Quantas figuras há como esta nos hotéis do mundo? Pessoas a quem a fortuna bafejou, talvez a pensão de um ex-marido milionário, a mocidade a voar célere, o ar de desencanto a revelar o quanto os sonhos se desfizeram. E o quanto há de irrealizado em estado de espera. Vejo-a, comovido, em seu silêncio e hierática distância. Não lhe nutro especial simpatia, mas lhe admiro o modo corajoso e sereno pelo qual enfrenta com dignidade (e como ninguém é de ferro... num hotel cinco estrelas) a sua solidão de fêmea arrebatada da felicidade.


04-02-2008

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