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A esquerda brasileira foi deveras silenciosa em relação à morte de Roland Corbusier, há algumas semanas. Eu estava de férias no jornal, e, fora do Rio, não lhe pude prestar homenagens. Roland morreu com noventa anos e, até perto dessa idade, ainda dava aulas de filosofia e escrevia. Convivi com ele em período inesquecível de minha vida. Tinha eu 25 anos, ele perto dos quarenta e sete, ambos eleitos Deputados Constituintes do Estado da Guanabara em 1960. Com a Capital indo para Brasília, o Rio tornara-se Estado (condição à qual a meu ver deveria voltar) e, para escreverem a sua Constituição, foram eleitos 30 Deputados. Entre estes, nós dois. E, como Roland, alguns nomes de alta cultura. Sem ser marxista-leninista, embora de esquerda, aproximei-me de Roland, de quem me tornei amigo. Depois veio o golpe de 64, fui para o exílio, ele desistiu da política militante, ficou apenas a ser professor, eu voltei à política e nunca mais nos vimos para pena minha que lhe admirava a inteligência, o caráter e um bom humor só sabido por quem o conhecia de perto. Era engraçadíssimo e sempre a sério. O espaço não dá para contar as tantas histórias deliciosas da convivência com ele, graças a quem conheci alguns amigos novos e inesquecíveis como o pianista Bené Nunes, sua deslumbrante mulher, a Dulce Nunes, o Professor Alberto Latorre de Faria, os Gargaglione, Josefa Magalhães, Eugênia Feodorova, Luís Carlos Prestes. Roland viera de um catolicismo ortodoxo, direto para o marxismo idem. Era um intenso, um vibrátil e magnífico orador que manteve diatribes notáveis na tribuna, com outros Constituintes de alto talento e valor, pessoas de posições opostas, como Aliomar Baleeiro, Gladstone Chaves de Melo e Sandra Cavalcanti. Certa vez, Roland cometeu uma agressão verbal absurda contra ela, o que, depois (eu acompanhei o seu remorso nesse dia após a sessão), o deixou arrasado e o levou às lágrimas. Eu vi. Desculpou-se, de público. Aquela Assembléia Constituinte foi memorável. Fizemos uma magnífica e moderna Constituição que durou até a fusão com o Estado do Rio, imposta pela ditadura. Éramos apenas 30 Constituintes e a composição cultural era muito superior ao que acontece hoje na política brasileira.
Roland aliava uma inteligência cartesiana e lógica a uma inflexibilidade
que dele fazia um radical no melhor sentido da palavra, embora
intolerante muitas vezes. A esquerda brasileira muito deve às suas
aulas, à sua militância, a seus livros, ao ISEB que ajudou a criar e o
qual dirigiu em fins da década de 50; e às suas teimosias, à coerência
ideológica que o acompanhou até o fim. Foi um patriota e um homem de
bem.
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