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Rostos Que Passam
Observo e observei muita gente ao longo da vida. O ser humano me comove e interessa. Fixo-me sempre em seres secundários nos acontecimentos. Olho para as pessoas na rua. Em eventos coletivos multitudinários, como enterros famosos, assaltos, passeatas, greves, além dos elementos principais da cena, meu olho corre para o rosto anônimo por trás do entrevistado. Em programas de auditório, fixo os rostos impessoais que aparecem fugidios no vídeo, enquanto a estrela canta. Diante de fotos (solenes, ou não), fixo-me nas caras desaparecentes, surgindo por trás do figurão, glória fugaz. Tais pessoas me interessam e comovem, repito. Cada rosto, principalmente o que nada tem de especial, traz-me, diariamente, o mistério da existência, no qual vivo (morro?) afundado em dúvidas e dívidas transcendentes. Pensar que cada ser é complexo como os grandes artistas ou pensadores! Reconheço que procurar o mistério da vida atrás ou através (atrás, vês?) de pessoas aparentemente inexpressivas é exercício constante de minha vida de escritor. Seres sem biografia, eu vos amo! Terrível é ter biografia (biogra/feia?). A biografia é a história do que fizemos. Entretanto, para onde vai a história do que não fizemos? E veja: no que não fizemos mora o melhor de nossa esperança. Tão bom que nunca o conseguimos. É preciso muito não fazer com felicidade para se ter biografia. 03-03-2008 |