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Posso
nascer sem braços e treinar a tal ponto os dedos dos pés até fazer-me
bom pintor. Vencido pelo destino, venci-o, é certo, ao pintar quadros com
o pincel entre dois dedos dos pés. Só o fiz, contudo, depois de a ele
submeter-me. Conheço pintores que pintam com o pincel entre os dentes.
Liberdade é a instância que me permite a escolha de vários caminhos após
a imposição do destino. Onde uma, onde o outro, eis a descoberta penosa
do existir. Agir, eis o ser ! Por
isso a liberdade é o supremo bem do homem, abaixo, apenas, da vida. É
instância eternamente presente porque sempre precisa ser conquistada.
Nasce da falta de respostas essenciais da vida. Se tudo fosse conhecimento
e luz, não haveria liberdade: só repetição. A cada imposição (de
qualquer natureza) brota, concomitante, a liberdade (pelo menos em potência)
de algo a se fazer. Não se eliminará, portanto, jamais a liberdade, por
mais que contra ela diariamente se atente. É a presença determinista do
novo em qualquer ato, idéia ou sentimento. A
liberdade é, portanto, ela, uma filha do destino que faz o ser humano
ser ao mesmo tempo determinado pelo mistério e livre para saber o
que fazer com tal determinação. Ceder, passivo, ao destino, é tão
grave quanto tentar opor-se ou transgredi-lo. Compreender a dialética
envolvida nesses dois pólos, é o suplício diário da existência humana
porque joga com uma instância concreta mas incompreensível (o destino) e
outra subjetiva e desejável embora fugidia, imprecisa e difusa (a
liberdade). Equívoco
é tentar opor liberdade a destino. Idem, o desistir da liberdade onde se
supunha haver apenas destino. Destino é acaso ou mistério e não o que
está escrito no “livro do céu”; é algo de próprio, profundo.
Liberdade também é destino, faz parte da “destinação”
psico-bio-genético-físico-metafísica do ser humano. Destino é
individualidade. É próprio, intransferível. Destino é o que nos difere
dos demais.Liberdade é o que nos permite unir
compreender e aprender a amar os demais. Na aceitação do Destino,
lateja sempre a potencialidade da liberdade, pois só a partir dela é
possível transformar a vida numa atividade (relativamente) feliz, útil,
saudável e criativa. É livre quem, reconhecendo os limites do seu
destino, capaz de descobrir o novo, o acaso, o criativo e só assim
encontra Deus. Deus é o ponto de encontro e fusão entre o destino e a
liberdade. Descobrir, portanto, o destino próprio a cada ser, não como
“o que está escrito”, mas da forma que lhe é peculiar, único,
individual, e segui-lo, sendo sempre criativo , sabendo-se filho de Deus,
perdoando e amando, eis o ápice da liberdade. Em síntese: o máximo de
identidade no mínimo de egocentrismo, eis o segredo. |