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A maior parte das pessoas que vivem nas sociedades competitivas do capitalismo, aspira a ser o que ainda não é, ou ter o que ainda não tem. Nas sociedades materiais, possuir bens e sair do sufoco terrível de ter que viver pensando na casa, na roupa e na velhice é uma das aspirações do homem médio. Na sociedade de consumo, o índice de subida e “progresso pessoal” é medido pela capacidade de consumir. E a verdadeira ascensão, que é crescer interiormente, torna-se esquecido. Nem mais a escola o ensina. A cada pessoa, em princípio, estaria prevista uma possibilidade de ascensão. Uma grande maioria desconhece-a; outros não dimensionam os limites dessa possibilidade e passam a vida tentando ir sempre além. Já, alguns (raros) que o conseguem, estes irão coonestar uma generalização: a possibilidade de isto poder acontecer com todos. Porém um mecanismo da classe e das economias dominantes, consciente ou inconscientemente, engendra condições para que tal não ocorra. O hindu Baghwan Shree Rajneesh dizia que a grande fonte de aflições humanas é o “tornar-se”. O homem abandona o próprio ser e as disposições básicas de seu temperamento e vontade, para tornar-se algo ou alguém. Por isto sofre. O tornar-se transforma (transtorna ?) o indivíduo no eterno insatisfeito, ansioso caçador do que ainda não tem e nunca terá, pois sempre quererá mais. O tornar-se é a fonte de todas as aflições do homem e das sociedades, porque, aos poucos, passa a constituir razão da vida. Esta deixa de ser a capacidade de viver o momento e o novo, o que nele (momento) existe (e insiste), para ser a eterna preparação para algo sempre além. E que jamais se alcançará. O tornar-se (substituindo a grandeza maior do Ser) constitui-se na causa principal da angústia contemporânea, porque coloca objetivos sempre fora, sempre além, sempre adiante, e impede o homem de viver o que lhe é dado com a plenitude só possível a quem compreende que a eternidade é o instante que passa. E que os grandes bens são os subjetivo-estético-espirituais. A tese da sociedade de consumo é, pois: excitando o desejo de consumir, será obtido um consumo maior, e assim crescerá a produção. Crescendo esta, haverá mais emprego, melhores salários e as pessoas realizarão esforços extraordinários em trabalho e estudo para obter uma valorização maior. Esse esforço coletivo, impulsionado pelos desejos individuais, determinará o progresso e a gradual democratização da sociedade pelo equilíbrio natural das oportunidades, segundo os méritos e o valor (sempre diferentes) de cada um. Em termos econômicos é verdade: mas a alto preço existencial que, inevitavelmente, leva uns a passarem por cima de outros com qualquer tipo de trator moral.
13-01-2005 |