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Só
quem é capaz de enfrentar a solidão adquire a capacidade de ser. Se é
possível enfrentar a solidão (ainda que como
indesejável companheira), então adquire-se o direito de ser. Ser
é adequar a vida às próprias características é libertar-se através
da verdade interior. Libertar-se através da verdade interior é alcançar
a coragem de ser. Aquele
silêncio, por exemplo, namorada, amante ou mulher (ou com o marido), com
a mãe ou pai. Aquele silêncio machuca quem nos esperava alegres,
faladores, contando as peripécias da vida. E, no entanto, cheios de coisa
para contar, nada sai. Ou sai pouco. "sins", "nãos",
frases sintéticas e um ar irritado, pressa para acabar o assunto. Parece
desamor. E de fato é egoístico. Mas é preciso aceitar que há ou pode
haver uma forma especial de amor naquele silêncio, naquela irritação.
No exercer (exatamente por ser proveniente de quem ama e é amado) aquele
passageiro tédio e aquele teimoso
cansaço. No
silêncio e até na zanga que o/a faz calado/a muitas vezes está-se
a dizer: “eu a/o amo tanto que a você posso entregar o meu cansaço,
o meu silêncio, a minha necessidade de ficar quieto ou amuado, nada
contar, não falar, não ser solicitado. Eu estou aqui a seu lado como
quem pede socorro em silêncio, na suposição e esperança de que aqui
ninguém exija que eu fale, conte, ou me defenda, que eu seja brilhante,
que eu seja bom etc. Eu vim aqui homenagear você e o seu amor com o meu
silêncio, o meu cansaço e o meu egoísmo, porque você os saberá
entender. Por favor, sem essa de discutir a relação.
Existem mais situações no amor do que palavras para as definir ou
explicar. Por isso, o silêncio é eloqüente, tantas vezes. Nele moram
intuições, percepções e sentimentos que serão estragados se houver a
tentativa da verbalizar o indizível. Daí tantas brigas. Por mais que
amemos a palavra e ela a nós, nas situações em que ainda não se
inventou a precisão de certas definições, o silêncio, uma lágrima ou
um beijo dizem muito mais. Idem afastar-se ou aceitar que está na hora de
partir. Rolar no chão em explosão erótica, se comum
a ambos, é também uma “fala” formidável. 16-11_2004 |