TI-TI-TI DO CHICO  

Confesso haver ficado revoltado com o que setores de nossa imprensa fizeram com o Chico Buarque e sua privacidade!  E fazem o mesmo com muita gente. É um sofisma encapado por um argumento falso: de que são figuras públicas. Sim, são. Mas seus atos privados, privados são, ora!

Você já reparou o quanto as pessoas em geral (e não só a imprensa) falam dos demais? Da moral, do comportamento, dos sentimentos, das reações, dos medos, das imperfeições, dos erros, das criancices, ranzinzices, chatices, mesmices, grandezas, amores, humores, feitos, espantos. Sobretudo falam do comportamento. E falam, porque supõem saber. Porém não sabem. Porque jamais foram capazes de sentir como o outro sente. Se sentissem, não falariam. Só pode falar da dor de perder um filho, um pai que já perdeu, ou a mãe já ferida por tal amputação de vida.

As pessoas falam da reação das outras e do comportamento delas quase sempre sem jamais terem sentido o que elas sentiram. Mas sentir o que o outro sente não significa sentir por ele. Isso é masoquismo. Significa perceber o que ele sente e ser suficientemente forte para ajudá-lo exatamente pela capacidade de não se contaminar com o que o machucou. Se nos deixarmos contaminar  pelo sentimento que acomete o outro, como ter forças para ajudá-lo?

O segredo da solidariedade é ficar com o outro que sofre e não, como o outro que sofre, porque aí nos faltará forças para ajudá-lo. Só quem já sentiu e viveu os muitos sentimentos do mundo, e possuir  três grandezas: a compaixão; a empatia; e for dotado de bondade, está ou fica apto a ser verdadeiramente solidário e tolerante com as outras pessoas, só este, cresce como pessoa e se torna naturalmente  mais feliz.

Sentir os muitos sentimentos do mundo não é ser uma caixa de sofrimentos. Isso é ser infeliz. Sentir os muitos sentimentos do mundo é abrir-se a qualquer forma de sentimento: os maus, os bons, os pérfidos, os sórdidos, os baixos, os elevados, os mais puros, os melhores, os elevados e os santificados.. E se você gostaria de ser assim, espere florescer a árvore do próprio sentimento: vivendo, aceitando as podas da realidade e se possível fecundando. Só sabemos o que já sentimos. Por isso, não se deve sair por aí a falar e a falar dos demais. E de modo inconseqüente e leviano.

 23-03-2005

Voltar