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Um Cantor Em Decadência
Alguém me diz que o cantor fulano está decadente. Certo ou errado, aquilo me machuca. E nem conheço a pessoa citada assim com desdém. Sou um tripulante de solitárias madrugadas. De noites em que me isolo para repor as cargas multidirecionais de uma sensibilidade intensa e dispersiva. Freqüento canais, programas, estações de rádio fora da linha do sucesso, alguns - por que não dizer? - com aquele saboroso cheiro de decadência que a tudo aquece com tolerância e ternura. Sim, decadência. Não temo a palavra. Amo-a. Sou parte dela. Decadente não é o ruim. Decadente é o bom que passou de moda. O ruim morreu. Decadente é o que não morreu porque é bom e, mesmo fora das vogas, persiste pela qualidade. Tenho enorme reverência por tudo o que é decadente. Respeito. Porque decadente é o que permaneceu fiel ao que era e sempre foi. Casas, fachadas, muros, roupas, certos bares, pessoas que ficaram fixadas em sua geração sem ver o tempo passar, maneira de falar, pentear, morar, calçar, bailar, olhar, artistas, músicas, paredes, decorações: no decadente está o bom. O que permaneceu a despeito da avalancha de mudanças. O que resiste, apesar. Na decadência estamos todos nós. Há algo que teima em ficar porque tem relações com o permanente, e não com o conservador. Decadente não é o superado. É o insuperável em seu momento de pobreza ou ostracismo. Freqüento, dizia, programas, canais, rádios pelas noites e madrugadas, nos horários dos fora da mídia, quando o peso do sucesso passou e há condições de rever artistas no limbo, fora do estado de glória, ainda pouco conhecidos, ou teimosos. Gosto deles. Trazem recordações de passadas vivências. Presto-lhes em silêncio a homenagem de quem lhes sente a arte e entende a luta que empreendem. É o impulso de um dever: o de dar atenção, aplauso fluídico aos artistas do fim de noite, do passado e da madrugada, os alijados do aplauso em vigor. É o dever de quem se sente culpado por ter que dedicar a maior parte da sua atenção a quem está em evidência. Afinal, o jornalista é um ser atrelado a trágicas obrigações com o mercado, o imediato, o que está sendo consumido aqui e agora. 03-03-2008 |