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Os serviços de táxi, no
Rio, melhoraram muito nos últimos anos. Tenho apreciado motoristas educados, cultos e agradáveis a ouvir rádios
boas como a FM 90.3 com música brasileira da melhor qualidade ou a MEC FM
com música clássica. Domingo passado um deles, da Cooperativa Táxi
Leblon me mostrava vários livros que lê nos intervalos sem passageiros,
só gente boa, Clarice Lispector, Fernando Pessoa, citava Augusto dos
Anjos de cor.
E
houve um outro que me impressionou. Eu estava com um gringo, desses que a
gente tem que obsequiar e não sabe o que fazer além de levar no Porcão
(como gostam de churrascaria!...). Em frente ao hotel dele ficavam aqueles
táxis mais caprichados da Royal Coop. Ele já visitara, Corcovado, Pão
de Açúcar, Maracanã, etc. O motorista era um Sr. Moraes. Pois a
simpatia e a cultura desse Seu Moraes (pra mim ele tem curso superior) deu
um banho de Rio não óbvio no gringo. Começa que falava inglês,
espanhol e francês. Começou, levando-nos para algo que disse ser possível
apreciar somente nesta época do ano: apreciar o embelezar-se das
folhas das amendoeiras. E nos levou por ruas repletas das folhas de
amendoeiras de várias cores do ocre ao amarelo e deste à tintura sépia,
e uma cor única que ele definiu assim: “não é marrom nem deixa de
ser”. Rimos. Tudo isso ele narrava como um poeta já lá na Praça
Paris, repleta de amendoeiras embelezadas pela troca de folhas. Dizia:
“veja, mister que no trópico as amendoeiras generosas, depois de dar
sombra no verão, antecipam a primavera e se embelezam para morrer, numa
lição para nós mortais. E depois sabem ficar nuas para a explosão da
primavera”. Exultei em silêncio: o cara é um artista!
Aí
o gringo falou que tinha lido lá na Inglaterra sobre baleias que encalham
em nossas praias. Depois que eu falei umas abobrinhas sobre o tema, como o
quanto gostaria de ser baleia na próxima encarnação, Seu Moraes o
motorista poeta, de modo modesto, dissertou: “Esse encalhe vai
crescer nos próximos anos. Soube ele pelo Instituto Baleia Jubarte (eu
nem sabia da existência..) e também citou o Projeto Baleia Franca, que
ambos comprovam que a matança está a diminuir e graças a Deus aumenta a
população dessa espécie. Disse que mesmo assim os índices ainda estão
longe do ideal e que os técnicos temem que o ruído da prospecção de
petróleo nas plataformas de Campos e Macaé perturbe a orientação delas
na migração da Antártida para a reprodução e haja mais encalhes.
Garantiu que houve, provado, crescimento de 14 % no ritmo de crescimento
dessa espécie a cada ano e que há um serviço brasileiro de sobrevôo
oficial para essa identificação. Incrível, o homem! No final da
corrida, ele saltou do carro para se despedir. Vimos que estava de
luto,uma tarja preta na manga. Ao ver-nos olhar para ela, antecipou-se:
“estou de luto moral e muito já chorei pelas crianças mortas naquela
escola na Rússia.” Aí choramos os três. |