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Um Mimo Para A
Mulher Carioca
A carioca está mais para fruta que flor.
Ela é sumo, oferenda, cor e alegria. É flor, sim, transformada em
dádiva, semente, procriação: o fruto. Não vive de sonho: sonha viver,
ser, enfrentar, atravessar mares, baías, pontes, pontapés, bala perdida,
montanhas, mistérios e mitologias na procura de seu amor. Ela mistura
poesia, zen, psicanálise, Fernando Pessoa, Nelson Gonçalves, valsa de 15
anos, bolero ou sabor de jujuba em seu olhar ora triste ora tardio,
nostalgia de cais, decisão de santa, vontade de javali, ânsias de
torcedor do Flamengo naquele segundo que antecede o grito de GOL.
A carioca não rejeita tarefa. É de luta sem ser de briga. É de bondade
sem ser de fraqueza. É de mar sem deixar de ser de serra. Ela não
confunde compreensão com paquera; interesse com atração, amizade com
infidelidade, amor verdadeiro com envolvimento. Gosta de coisas claras,
manhã de vento frio no sol forte, carambola, dengo, elogio na orelhinha
e franqueza. Ela toma água de coco, come polpa de margarida e tem
pitangas no olhar. Sabe de guerra de almofadas, riso solto, vontade de
brincar e competência profissional.
A carioca da gema não gosta de vaidosos, odeia os pesados d’alma mas se
afasta dos levianos. Para conquistá-la há que já ter lutado pela
justiça, ter perdido certas batalhas e saber sair melhor de cada derrota
conseguida em nome dos melhores ideais. Mas em nome dos ideais não há
que ser chato; juiz dos demais, metido a puro, ou patrulheiro
ideológico, que nada disso ela aprecia. Prefere o ar livre ao
refrigerado; os bons aos simpáticos; os intensos aos tensos; os
generosos aos amáveis; os de sorriso bom à vaidade exibicionista; os
francos aos grossos.
A carioca ama vestidos soltos, e sentir suas sublimes pernas livres e
belas, o busto em expansão. Prefere as almas tolerantes aos puros
restritivos. Gosta de pai amoroso, avião, refresco de caju, passear de
mãos dadas e dizer “médio” bem chiadinho, “médjjioo”. Sabe de crianças,
não invade o próximo e detesta fuxicos, cutucões, beliscos, gente que
fala alto, bafo de tigre, interesseiros. Prefere o encontro das
verdades: das químicas do corpo, às verdades existenciais e as do amor,
ainda que doam.
A carioca tem cheiro de férias e cor de amendoeira ao pôr do sol no
Posto Seis em Copacabana. Está sempre com cara de quem quer se lambuzar
num sorvete de chocolate que ela pronuncia chocolate, assim como fala
"doce" em vez de doze, de som tão seco. Finge não dar bola para o muito
do amor que lhe vive a estourar sem estorvar, no peito amigo e bom, onde
mora a mais completa vontade de ser, crescer e existir e uma enorme
alegria de quermesse e algodão de açúcar, nascida do amar sem grilos,
apenas deixando-se sentir, fluindo, fluindo, até chegar ao melhor de si,
sempre guardado apenas para um felizardo.
06-11-2007
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