Velho Bolero

Estava nisso quando, vindo do leste, com o vento da saudade, soou em todo o universo um bolero. Depois outro, várias vozes, rosto colado, mistérios do amor inaugural. Desandei, então, a devanear..

Traz contigo, velho bolero a emoção do momento de colar o rosto ou de começar a declaração pela maneira de segurar a mão da garota (chamava-se “broto”), na hora de dançar. E me devolve uma cidade que acabou e um tempo que havia tempo e lugar sem perigo para namorar. Traz contigo, bolero, as saias com anáguas e a moda dos seios altos que as moças empinavam para nos fazer (e a elas) sofrer a insônia de excitações repletas de impossibilidades, virgindades e palpitações. Ai da que não cassasse virgem! Traz contigo, velho bolero, as mães que acompanhavam as filhas às festas e ficavam à espreita de um rosto colado; de um roça-roça; mão no cangote; dançar colado de cima a baixo; coxear; beijo (beijo? Era mais respiração fungada do que beijo porque era rápido demais!) debaixo da orelha; de um "dar bola" que era ficar olhando e olhando, perdidas horas-minutos.

Traz contigo, bolero saudoso, a alma do amor. Ela se alimenta de um tipo de romantismo que a vida não mais permite. Por isso, bolero és. Paixão no lugar de amor. Perda do ser amado: vontade eternmente irrealizada porque ideal.  Bolero sem impossibilidades, bolero não é. A dor da impossibilidade é sua matéria prima. Com possibilidade não é bolero; é filme dos anos cinqüenta da Metro, com “happy end" e chance de segurar na mão da namorada suave como açucena.

És “loca atracción” no lugar de “gostosa” como se diz agora, com um tom repleto de grosseria;  És desespero no lugar de dor. Sem trocar amor por paixão, dor por desespero, impasse por impossibilidade, não há bolero porque sua alma está composta dessa matéria dolorosa e fugidia que é a procura do amor verdadeiro. O bolero não admite meio-termo, conflito entre razão e emoção, entre amor físico e espiritual, essas divisões, nada disso. Nele, o amor é total ou não é bolero. Para o bolero, mulher é "Deusa". Depressão é "Frio naalma". Amante é “Pecadora”. Estrada é "Vereda Tropical". Bolero é, pois, totalidade de afeto, entrega completa, transporte absoluto para o ensolarado território da paixão, onde quem duvidou morreu, quem cogitou foi expulso e quem teorizou ficou a chupar o dedo

02-01-2007.

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