Zuenir E D'Ávila

O evento mais comum e corriqueiro da televisão é a entrevista. Desde os repórteres de campo no futebol, aos repórteres nacionais e internacionais. A entrevista relâmpago entra até nas travessuras da turma do Pânico, dos Casseta e Planeta, do Ícaro de Paula. Estas, porém, são reportagens nas quais a entrevista deve ser breve e aguda.

 A entrevista longa é uma arte. Precisa sempre de um bom convidado, o entrevistador não deve nem invejar nem disputar brilho com o entrevistado, mas saber interromper e provocar os pontos interessantes da conversa. Não deve espremer o entrevistado, antes, deve excitá-lo por deixá-lo à vontade, não ameaçado. E ir, gradualmente, tornando-se irresistível para quem vê.

         Há na televisão brasileira cinco entrevistadores(as) diferentes dos perguntadores assanhados, excitados e “auto”falantes,   com ânsias de brilhar mais que o entrevistado. Há outros bons, mas cito como exemplo: Roberto D’Ávila; Mônica Waldwogel; Serginho Groissmann, Vera Barroso e Edney Silvestre. Vão ao essencial e sem bajular, jamais competem com, ou constrangem o entrevistado.  Mesmo assim, mergulham fundo.       

Sexta passada acompanhei, encantado, uma dessas entrevistas inesquecíveis: Roberto D’Ávila ouvia e nos apresentava Zuenir Ventura a propósito de seu novo e fascinante livro. Que prazer ouvi-los! Tempo para a entrevista (foi na TV-E); os dois a falar com voz natural; nenhuma pose de sabichão ou narcisismo. Eram dois tímidos simpáticos a conversar. Zuenir é uma pessoa, cuja vida é a história da conquista da serenidade; da fama; e da felicidade que veio depois de haver transposto, com honradez e simplicidade, inúmeros sobressaltos, da política à saúde, um ser que amadureceu sereno, lindo por dentro e por fora, repleto de histórias interessantíssimas de sua vida de jornalista, muita naturalidade, nenhuma bazófia. Uma conversa instrutiva e agradável, com passagens por décadas da vida brasileira, e a lembrança amorosa de personalidades com quem ambos conviveram: Alceu de Amoroso Lima, Darcy Ribeiro, Jango, Pedro Nava, Glauber Rocha, Rubem Fonseca, Carlos Lacerda, Chico Mendes e um menino de treze anos que estava com a vida em risco na Amazônia e Zuenir trouxe para o Rio, só para citar alguns (o espaço se acaba) dos que desfilaram diante da audiência, narrados com simplicidade e amor, exemplos de vida. Este é um Brasil que também existe e vai se impondo.

 24-05-2005

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