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Colaboradores - VMD

"Crônica" - Uma Conversa com e sobre Vânia Diniz
Ana Luísa peluso

Oi querida irmã,
Olá amigos do grupo VMD.

No momento, enquanto escrevo para vocês, escuto “My Way” com Frank Sinatra. Não é “música do meu tempo”, mas em primeiro lugar, esse negócio de tempo é relativo; nunca me pautei por ele, principalmente quando meus sentimentos estão em jogo. Em segundo, por esta música, mais do que outras dizer muito de mim e da owner desse grupo, minha irmã de coração, Vânia. Irmã de coração, por não sermos irmãs consangüíneas, mas também isso não tem importância alguma. Foi apenas um erro do destino que o próprio destino se encarregou de consertar.

Eu não conheço Vânia pessoalmente, por incrível que pareça. Mas isso não muda nada. A conheço, talvez melhor do que muitos que convivem com ela. Por que sinto daqui sua pulsação pela vida, seu carinho interminável pelas pessoas, sua necessidade de ser útil e como todos, ter reconhecimento por isso.

Vânia entrou em minha vida num momento crítico, quando minha crença no ser humano estava por um fio; quando eu já começava a pensar que era louca pelo bem querer imenso que mora em mim e que muitas vezes sequer é notado pelas pessoas na correria do dia-a-dia. Além disso, Vânia se mostrou crente quanto às mudanças sociais na mesma intensidade que eu. E partimos para o projeto da Officina do Pensamento, que a grande maioria já conhece. Confesso que tentamos levar o projeto até onde agüentamos. Era um ano difícil, o de 2001. Perdi meu pai, Vânia tinha seus problemas e acabamos desistindo de tudo em prol da nossa amizade, já que o desgaste de gerir um site começava a interferir em nossa amizade. Preferimos a amizade, o amor, a compreensão em favor do site, que por sinal anda ruim das pernas.

Abro um parêntese para dizer que só quem tem um site na net, sabe das dificuldades todas que vêm junto com o respeito e reconhecimento que ele traz. Muitas vezes, achamos que estamos fazendo o melhor que há em nós e alguém reclama. A maioria dos autores se esquece que nada é cobrado por um trabalho que dá um trabalhão; e que se passamos noites em claro (coisa que Vânia passou a fazer também, desde que começou a atualizar o site Rosa) é por paixão à arte e à literatura e não para termos benefícios financeiros em troca. Digo isso aqui, por que sei do empenho de Vânia para com o site e o grupo e garanto: ela não precisaria disso para ser feliz. Mas como a menina que subia o morro Dona Marta para dar aulas aos pobres, Vânia carrega consigo o amor maior, o amor vão, aquele que estendemos a todos, que vem de Deus e passa por algumas pessoas que conseguem canalizar ele. Vânia é uma dessas pessoas. Uma menina rica, que deixou tudo pra trás, para ser independente, para poder viver sua vida de acordo com sua consciência e não por regras impostas pela alta sociedade.

Vânia e eu somos muito parecidas. Amamos demais, nos exaltamos, subimos pelas paredes quando necessário por termos uma paixão em comum: o ser humano e seus direitos.

Eu não me sabia escritora até conhecer Vânia Diniz. Apesar de escrever há tantos anos.

Gozado, escrevo isso e consigo vê-la ao meu lado, as unhas bem feitas, o cabelo arrumado, a graça da princesa de Copacabana, os olhos brilhantes como uma criança que crê antes de tudo estar fazendo diferença. E está. Apesar de hoje em dia o site da Officina ter tomado outro rumo (coisa que dei um basta e no final de janeiro, ele voltará a ter espaço para todos, principalmente por que não posso ter um site que agrade apenas uns & outros, esquecendo de construir um espaço para meus amigos), continuamos juntas em pensamento e amizade. Não há um dia sequer que eu esqueça Vânia.

Muitas vezes não posso responder aos seus e-mails. Vânia sabe das minhas dificuldades, meus problemas de saúde e tudo o que acontece comigo. Mas mesmo sem o contato intenso (coisa de mais de 50 e-mails por dia, em pvt), continuamos tão próximas como sempre estivemos.

Então... Vejo Vânia aqui ao meu lado. O sorriso saindo dos lábios, o riso contagiante, a voz linda que só ela tem. A vejo assim e também nos momentos de emoção, seja por bons ou não tão bons acontecimentos. E a compreendo, por que sou igual. E mesmo que eu não fosse, compreenderia, por que não existe amor sem compreensão. Compreensão é a máxima do amor. Sem ela, não conseguimos amar, por mais que digamos que sim.

E a vendo, sei dela tanto quanto saberia se ela estivesse realmente aqui, fisicamente, palpável. Sei das dores que passou para ter sua independência, pelas dores que passa quando sente que não foi compreendida em toda sua vontade de viver.

A vida pulsa em Vânia, como pulsa em mim, e parece, temos o mesmo destino: não poder vivê-la da forma como gostaríamos, por sempre estar acudindo um ou outro, ou mesmo entrarmos em um estado de espírito reflexivo que nos afasta da festa da vida.

É. Nós somos assim. E de uns tempos pra cá, digo: doa a quem doer.

Estou certa que se morássemos próximas, metade de nossos sonhos/projetos já estariam realizados. Nossa Fundação em benefício do combate a miséria, nossa livraria e editora e muitos outros projetos que fariam com que pensássemos que todas as dores que sentimos até hoje, valeram à pena, de alguma forma. Mas talvez ainda não seja o momento de nos encontrarmos. Talvez algo no Cosmo queira ter certeza que, juntas, cumpriremos com o prometido e compromissado através de nossas palavras.

Não me envergonho nem um pouco de dizer, que, se não fosse por Vânia, minha carreira de escritora já teria terminado, talvez antes até de nascer. Apesar de eu vir de uma família influente e de intelectuais, vários problemas de saúde me impediram de concluir planos que me levariam ao sucesso em alguma carreira.

Minha emoção é tanta, no momento, que as palavras saem em fluxo de consciência, como se eu e Vânia estivéssemos em contínua conversação íntima.

O que quero e preciso dizer a vocês, é que Vânia é alguém muito especial. Muito mais do que vocês imaginam. É minha fada madrinha e de vocês todos também. E sempre digo à ela que caso eu chegue em algum lugar com a carreira que me escolheu, é à ela quem devo o incentivo, o carinho, a amizade inconteste.

Às vezes me culpo, por estar com problemas e não poder escrever a Vânia com a mesma regularidade, mas de alguma forma, nosso amor é maior que essa mesquinharia que encontramos na net, volta e meia, quando alguém se queima por demorarmos na resposta de um e-mail.

Infelizmente, ninguém está na pele da gente pra saber de nossos limites e nossos impedimentos.

Com Vânia nunca tive, nem terei esse problema. O amor que sentimos uma pela outra é tamanho, que a falta de contato não deixa sequer arranhões em nossa amizade.

Sonhamos muitas coisas juntas que beneficiariam não apenas os autores da net, mas também as crianças, que mal sabem ler e por conseqüência não têm acesso à cultura. Talvez ainda não seja o tempo; talvez o que nos rege aguarde que minha vida entre nos eixos, mas a roda continua o movimento, mesmo sobre eixos tortos e Vânia compreende isso, por ser exatamente quem é: alguém que ama, antes de tudo, a todos.

Sei que se nos encontrássemos nesse exato momento, não pararíamos de nos abraçar por longo tempo. Depois iríamos tomar milk-shake de morango, porque mesmo escritor metido a pensador gosta de coisas simples. E pensando bem, só nos aproximamos, justamente por termos a mesma simplicidade nas questões da vida. Em outras palavras: não precisamos do “mundo” para sermos felizes. E sempre agradecemos essa nossa simplicidade.

Mas precisamos do carinho das pessoas que amamos. E isso não é pedir demais. E a cada dia, noto que acabamos encontrando pessoas verdadeiras em nossos caminhos, que apenas engrandecem nossos sonhos e fortalecem nossa vontade de continuar.

Vânia é tem um temperamento fleumático, que chora e ri com a mesma intensidade e sente-se ofendida com facilidade, mas se isso acontece é porque ela aguarda de todos nós o mesmo carinho que nos dedica e também por ser dona de uma personalidade intensa, cheia de vida!

E os seres humanos sensíveis são assim mesmo. Nós não sabemos controlar totalmente o que sentimos e saímos amando Deus e o mundo até perceber que nem sempre o mundo quer ser amado ou outro sentimento semelhante. Por isso sofremos, por isso choramos e por isso voltamos a sorrir, quando encontramos quem nos compreenda.

Ela concorda com a cabeça, ao meu lado, imaginária que é no momento, mas real, como está aí, agora, quebrando a cabeça para sempre trazer novidades para o site e seus leitores/autores.

Essa é minha irmã. Dona de uma alma pura, linda, doce, inteligentíssima, meiga, brava quando necessário e firme. Uma verdadeira lutadora.

Escrevo tudo isso, porque minha vida está muito difícil e breve precisarei arrumar um emprego (após uma cirurgia para extração de um nódulo no seio direito) e com isso vou me afastar um pouco mais do convívio com todos vcs, a quem quero muito bem, de A à Z. Muitos de vocês, do grupo VMD podem pensar que não respondo e-mails por algum outro motivo que não seja o stress que passo no momento. Mas alguns amigos entram em contato, conversam, perguntam e compreendem que meu dia-a-dia não tem sido dos melhores. A esses, meus agradecimentos pela compreensão.

Mas mais do que isso, peço:

Não deixem que façam minha irmã triste nem por um minuto. Não permitam isso. Nunca respondam um e-mail, sem antes se questionarem o que possa estar acontecendo. Muitas amizades se perdem (não apenas na net), por falta de paciência e diálogo.

Vânia sempre fala de vocês todos com grande carinho, mesmo quando nos falamos por telefone. Mas ainda assim peço: cuidem bem da única irmã que Deus me deu.

Vânia,

A você, que acredita em mim mais do que qualquer outra pessoa, meu carinho, meu amor verdadeiro, inconteste, forte o suficiente para sonhar com você e no dia seguinte sabê-la triste ou feliz, mesmo sem contato e depois me certificar que certamente nos encontramos durante o sono e você provavelmente me contou o que se passava em seu íntimo.

Sei que ainda tenho muito que aprender com você e sua dedicação, por isso, nunca desista do site Rosa. E eu prometo também não desistir da Officina, mesmo que arrume um trabalho fora.

Você jamais saberá o que significa para mim. E a cada vitória, como o lançamento dos Anjos, não ter você próxima, me deixa um buraco no peito, apesar de saber, que mesmo à distância, você torce por mim mais do que ninguém.

Você jamais saberá da importância que teve na perda de meu pai. O quanto foi importante sua presença, mesmo que digital ou por telefone. Sem sua presença em minha vida, eu não teria agüentado e você sabe disso.

Mas uma coisa você sabe: seus sentimentos são correspondidos com uma intensidade que muitas vezes me toma por completo.

É quando choro. Choro por não poder estar com você no VMD, por não termos levado nossos sonhos até o fim, mas choro, principalmente, por saudades de seu rosto que conheço apenas por fotos. E por não termos condições de estarmos tão próximas quanto gostaríamos.

A você, minha querida, querida irmã, dedico o poema abaixo:


Cigana,

De temperamento forte,
De olhar do mesmo porte,
Cujas ondas nos cabelos
Lembram as de outros mares,
(aqueles de sua infância)
_não desfaleça seus sonhos,
_não acredite no medo
_não temas em segredo
_não chores nunca sozinha.

Esses seus lindos olhos
Enigmáticos,
Não foram
Realmente concebidos
Para serem estáticos.

Eles pulsam o reflexo da vida
Dos outros
Que a atriz viveria
Se os contos e a poesia
Não a tivessem roubado
Debaixo dos refletores.

Mas ainda assim,
Ora risonho,
Ora tristonho estado de ser,
Você é a autêntica forma
De um ser verdadeiro,
Que não esconde o que sente,
Por medo de perder.

Cigana lutadora,
Empunhe seu arco e flecha
Feitos de sua vontade.
Acerte o alvo da felicidade.
Ele está ali, no seu âmago,
No espelho – em seus olhos,
Nesse espaço, junto aos amigos,
Naquele outro espaço:
Nossos sonhos,
Nosso abrigo:
Os livros que sonhamos
Levar a todos.

Está também na vida
Que escrevemos
Todos os dias,
Que faz da poesia
Nosso maior presente.

Cigana,
Não tente desviar o caminho
Nem um milímetro a mais;
Há ainda em seu semblante
O mesmo e inefável rompante
De vida
Que senti quanto te vi
Naquele dia, à tarde,

Quando entrei em seu site
E te reconheci.

* * *

Dizia Vinícius de Morais:

"Os verdadeiros amigos, a gente não faz; reconhece"

Beijos da irmã que te ama muito.
Fique com Deus e acredite sempre.
Sempre é tempo de sonhos se realizarem quando não estamos sós.

Ana

ps: Consegui encontrar a midi de "My Way". Eu ouvia a música do CD