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CLARICE LISPECTOR (1920-1977)
Por Luiz Alberto Machado
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"Tudo no mundo começou com um sim. Uma molécula disse sim a outra molécula e nasceu a vida. Mas antes da pré-história havia a pré-história da pré-história e havia o nunca e havia o sim. Sempre houve. Não sei o que, mas sei que o universo jamais começou. Deus é o mundo. A verdade é sempre um contato interior e inexplicável..." (Trecho do livro A Hora da Estrela") Uma das mais festejadas escritoras brasileiras, Clarice Lispector possui uma literatura intrigante e sedutora, razão pela qual vê-se a cada dia ampliando a legião de admiradores. Nascida na cidade russa de Tchetchelnik, na Ucrânia, Clarice transferiu-se logo cedo para o Brasil, especificamente para Recife, até cursar Direito no Rio de Janeiro. Daí, começou a trabalhar na Agência Nacional, como redatora, onde chega a conhecer escritores e jornalistas, como Fernando Sabino, Antônio Callado, Paulo Mendes Campos, Alberto Dinez, Rubem Braga, Hélio Pelegrino, dentre outros. Com a publicação do seu primeiro livro "Perto do Coração Selvagem", ela foi contemplada com um prêmio da Fundação Graça Aranha. Daí começa uma carreira das mais elogiáveis, publicando diversos livros e angariando a simpatia de leitores que até hoje não pára de crescer. Na revista eletrônica Nave da Palavra (www.navedapalavra.com.br) a professora pós-graduada em Literatura Brasileira e, também, uma das editoras da revista, Esther PS Rosado, reúne uma breve biografia de Clarice e uma análise muito interessante sobre o romance "A hora da estrela", indispensável para consulta. A obra de Clarice compreende a publicação dos livros Perto do Coração Selvagem (1944); O Lustre (1946); A Cidade Sitiada (1949); Alguns Contos (1952); Laços de Família (1960); A Maçã no Escuro (1961); A Legião Estrangeira (1964); A Paixão segundo G.H. (1964); O Mistério do Coelho Pensante (1967); Uma Aprendizagem ou Livro dos Prazeres (1969); A Mulher que Matou os Peixes (1969); Felicidade Clandestina (1971); A Imitação da Rosa (1973); Água Viva (1973); A Vida Íntima de Laura (1973); A Via-crucis do Corpo (1974); Onde Estivestes de Noite? (1974); De Corpo Inteiro (1975); Visão do Esplendor (1975); e A Hora da Estrela (1977). Além dessas, ainda foram publicadas postumamente Para não Esquecer (1978); Quase de Verdade (1978); Um Sopro de Vida (1978); A Bela e a Fera (1979); A Descoberta do Mundo (1984); Como Nasceram as Estrelas (1987) e Correspondências (2002) Várias de suas obras foram transformadas para o cinema, tais como A Hora da Estrela (BRA, 1986, 96min), sob a direção de Suzana Amaral, com elenco contando com Marcélia Cartaxo, José Dumont e Tamara Taxman; e O corpo (BRA, 1991, 80 min), dirigido por José Antônio Garcia e contando com Antônio Fagundes, Marieta Severo, Cláudia Jimenez, Carla Camurati, Sérgio Mamberti e outros. Para o teatro, foram transformadas as obras A paixão segundo GH, adaptação de Fauzi Arap, com direção de Enrique Diaz, em 2002; e Amor - Uma ode ao universo feminino de Clarice Lispector, adaptada por Marta Baião e Conceição Acioli, com direção de Conceição Acioli. Para se ter uma idéia da obra de Clarice Lispector, Assis Brasil (1979:72) sintetiza tratar-se de: "Uma literatura de sentido profundo e de significação incomum no plano da linguagem. Clarice Lispector deu maioridade à ficção brasileira moderna, com obra de nível universal. Uma arte valorizada pela sensibilidade e pela pesquisa da forma romanesca. A trama, o episódico, são relegados a segundo plano, para que o sentido da vida e do ser seja inquirido sem as peias da razão lógica". Numa análise de Afrânio Coutinho (1978:308), ele se refere à literatura de Clarice, como "(...) a que valoriza o produto do sonho e da fantasia, criando uma atmosfera sem densidade real, mas de forte conteúdo emotivo e usando uma linguagem metafórica". Reunindo diversos contos brasileiros contemporâneos para a coleção Travessia da Editora Moderna, Julieta Godoy Ladeira (1991:8) asinala que a obra de Clarice é: "Intuitiva até certo ponto, lírica (sem jamais esbarrar no sentimentalismo), Clarice Lispector tenta desvendar o mundo, em sua literatura, através do olhar voltado para si mesmo. Descobrindo-se, passa a descobrir o outro, para o leitor. O outro, que tanto pode ser homem, planta, luz ou animal - universo por onde seu mistérios e suas dúvidas circulam. Através da construção original de frases, da estrutura da linguagem e da maneira íntima de observar a vida, transmite efeitos surpreendentes". Numa outra análise, Litrento (1978:280) interpreta que: Em permanente virtuosismo, Clarice Lispector não se perde na mistificação de uma prosa apenas intelectualizada. Se sua linguagem simbólica e mágica chega às fronteiras do ensaio e aos limites da exaustão, por outro lado sua atmosfera de sonho, em obsessivo conflito com a realidade banal, é conduzida pela linguagem do medo, altamente valorizada por uma ficção tanto mais densa quanto mais lírica, inquirindo almas miúdas, explorando uma clareza muito próxima da noite. E, por fim, Haroldo de Campos (apud Sá, 1979:14) observa: "(...)A literatura praticada por Clarice Lispector não é, propriamente, da índole do que caberia designar, prima facie, como uma literatura do significante (assim entendido o trabalho verbal em nível de primeiridade sígnica, de hipo-ícones primeiros, formas significantes sucitadas diretamente pela materialidade do signans, engendreadas como que por facetas entre-reverberantes de som e sentido, seja concentração fônica do monema, seja na expansão prosódica do sintagma, tal como em Joyce ou Guimarães Rosa). É antes uma literatura do significado, mas levado à sua fronteira extrema, à tensão conflitual com um referente volátil, a figuras de indizibilidade, e mobilizando para tanto todo um sistema de equações metafóricas (terceiridade, hipo-ícones terceiros), instaurado a contrapelo do discurso lógico, mediante o qual são aproximadas ou contrastadas as regiões mais surpreendentes e imponderáveis do plano do conteúdo. Com seus traços simbolóides, a metáfora, peirceanamente falando, está próxima do vértice semiótico da arbitrariedade, da livre convenção, vale dizer, do símbolo: pode aproximar tudo de tudo; com seus resíduos miméticos, de priridade (cujo operador gramatical mínimo é a partícula comparativa como), ela pode impor ao arbitrário a aparência de necessidade, de similaridade, de solidariedade icônica". No entanto, melhor que falar de Clarice Lispector é lê-la, um prazer ímpar para o aventureiro que deseja ter um contato com a bruxaria literária mais fascinante. Felizmente sua obra está sempre sendo reeditada e disponíveis vários de seus títulos. Um alerta: o leitor nunca mais será o mesmo depois de ler Clarice Lispector. Boa viagem BIBLIOGRAFIA CONSULTADA BORELLI, Olga. Clarice Lispector: Esboço para um possível retrato. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1981. BRASIL, Assis. Dicionário prático de Literatura Brasileira. Rio de Janeiro: Tecnoprint, 1979 CARPEAUX, Otto Maria. Pequena bibliografia crítica da Literatura Brasileira. Rio de Janeiro: Tecnoprint, s/d COUTINHO, Afrânio. Introdução à Literatura Brasileira. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1978 GOTLIB, Nádia B. Clarice - uma vida que se conta. São Paulo: Ática, 1995. GUIDIN, Márcia Lígia. A hora da estrela de Clarice Lispector. São Paulo: Ática, 1996. LADEIRA, Julieta de Godoy (Org). Contos brasileiros contemporâneos. São Paulo: Moderna, 1991 LITRENTO, Oliveiros. Apresentação da Literatura Brasileira. Rio de Janeiro: Forense/Universitária/INL, 1978 NOVELLO, Nicolino. O ato criador de Clarice Lispector. Rio de Janeiro: Presença/MinC/Pró-Memória/INL, 1987. SÁ, Olga de. A escritura de Clarice Lispector. Petrópolis: Vozes/FATEA, 1979 WALDMAN, Berta. Clarice Lispector - A paixão segundo C. L. São Paulo: Escuta, 1992. Luiz Alberto Machado é escritor. Cursou Letras e Direito. Publicou vários livros de poesias e infantis. Tem inéditos livros de poesias, contos, novelas, crônicas, teatro e infantil. Possui artigos publicados na Gazeta de Alagoas, Diário de Pernambuco e Jornal de Natal. É editor do Boletim Nascente (www.abarata.com.br/nascente.asp) Home page: www.abarata.com.br/sites/luizalbertomachado |