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Machado
de Assis
(1839-1908)
Por Vânia Moreira Diniz
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Quando era criança, um dos
lugares que me abrigava com perfeição era a biblioteca do meu pai. Lá não só
ficava resguardada num momento de introspecção quando queria fugir de alguma
punição quase inadiável, como era um lugar de delícias nos livros em que
minha imaginação duplicava em seu colorido.
Não esqueço jamais o que significou para mim que me deixassem em paz
quando eu queria voar nas asas da descoberta sensacional de Monteiro Lobato: O pó
de pirlimpimpim.Fui a lugares inimagináveis, transida de entusiasmo e suspense
e pude compreender a beleza do mundo em suas nuances variadas vibrando com o espírito
de aventuras que nos faz gozar sensações difíceis de explicar.
Foi lá que fui apresentada ao
fabuloso Machado de Assis. Um dia sozinha entre aqueles autores que me faziam
refletir que direção tomar, deparei-me com uma coleção grande de livros
azuis,escolhi um que me pareceu atraente, li o título “HELENA” e comecei a
penetrar em suas páginas. Estava tão distraída que não vi meu pai entrar,
querendo saber o que eu estava fazendo ali tão zozinha.Mostrei-lhe então o que
estava lendo e ele me disse que se tratava de um dos maiores escritores
brasileiros. Perguntou-me se queria saber um pouco de sua vida. Balancei a cabeça
afirmativamente já antegozando o que poderia vir.
Hoje, depois de tantos anos tenho
pelo escritor a mesma perene admiração que dediquei no momento em que ouvia
trechos de sua vida. Nascera no morro, filho de uma lavadeira, epilético e sofrendo principalmente naquela época preconceito por ser mulato, tinha uma imaginação fértil que acabou conduzindo-o às letras. Escrevia com enorme facilidade, mas a verdade é que tudo o que sofreu está marcado no seu estilo fabuloso de uma ironia fina e por vezes contundente, o que se tornou a marca mais evidente de toda a sua obra.
No início de sua vida nada indicava
que poderia vir a ser esse extraordinário escritor, famoso, respeitado e
reverenciado a despeito da pobreza, da doença e de sua origem descendente de
escravos. Simplesmente Machado de Assis foi uma espécie de gênio da época.
Emergiu naquele meio, onde havia carência
de formação intelectual e até seu tipo físico, franzino, frágil e mestiço
era um obstáculo a qualquer supremacia intelectual ou social numa época em que
liderava a sociedade escravocrata e preconceituosa.
Muito de genialidade, sim, na construção
de sua imensa obra imortal porque atingiu o ápice nas letras entre os
escritores brasileiros. E foi sem dúvida com sua persistência e aprendizado de
técnicas na arte de escrever ,mistérios que guardava e soube explorar
magnificamente, que conseguiu passar do menino pobre vivendo num meio sem
nenhuma cultura ao homem extraordinariamente
dotado.
Realmente o fundador da
Academia Brasileira de Letras discorria sobre qualquer assunto e os
textos que envolviam o dia-a-dia tornaram-se assunto de suas maravilhosas crônicas.
Naquele dia eu quando tinha apenas 11
anos de idade e apaixonei-me pelo talento de Machado de Assis não sabia que ele
me surpreenderia a cada pesquisa que eu fizesse envolvendo seu nome e seu fantástico
talento, construídos na pertinácia e no estudo apurado, abrindo mão de uma
vida social e dedicando-se
exclusivamente ao conteúdo de suas observações, seguindo os grandes mestres e
sendo considerado por muitos o” maior escritor das Américas e o maior
prosador da língua portuguesa” 2ª Parte
À medida que o tempo passava e eu ia
entrando na adolescência a figura de Machado de Assis se tornava mais e mais
admirável. E eu ficava impressionada com a sua própria biografia que tinha uma
influência profunda no que escrevia. A ironia fina, inteligente e profundamente
crítica crescia à medida que ele conseguia o aprimoramento de seu espírito e
de conhecimentos antes muitíssimo limitados.
No humorismo fino e sardônico de que
seus textos estão impregnados conseguia rir interiormente do próprio
sofrimento, de uma infância recalcada e sofrida e dos próprios ressentimentos
encobertos por uma compostura
social que ele sabia manter e equilibrar. A fonte principal para ele , eram os
humoristas ingleses principalmente em se tratando de técnica e retórica. Claro
está, que também sua próprias tendências aí estão fixadas dentro de um
aperfeiçoamento adequado. Mas
principalmente obtinha a satisfação de cada momento de desconhecimento, que
conseguira superar. Essa era sua meta precisa
que com tenacidade soube atingir..
Machado de Assis estudou pela vida
afora de uma maneira compulsiva . Talvez não acadêmica, porque pelo que tudo
indica não teve uma formação de escola. Mas superou e muito, o que qualquer
escola ou faculdade poderia lhe dar em termos de concentração intelectual
apurada. E a influência de escritores, filósofos e escolas literárias foi
primordial na sua ascensão cultural em todos os sentidos. Foi mestre em saber
adequar o que de melhor havia em cada movimento e estratégia literária
com seu próprio eu. E para sua obra também contribui as meditações,
estudo da filosofia e autores que tivessem em ritmo
espiritual com ele próprio.
Machado de Assis era, sobretudo um
artista primoroso que desenvolveu suas potencialidades com intensidade e para
isso se esmerou tirando a essência de si próprio, mas estudando detalhadamente
técnicas e autores e pondo a serviço da funcionalidade que exibia com esmero. Obra de Machado de Assis - Machado
de Assis era um contador de histórias exímio, e fatos do dia-a-dia eram a
marca acentuada de seus livros. Ele revestia seus personagens de uma roupagem
que dava um aspecto nobre às figuras que descrevia. E isso porque além da
observação e estudo usava uma técnica
adequada que manipulava com extrema competência.
Realmente não sou uma crítica e
muito menos desse autor maravilhoso considerado o maior escritor brasileiro, mas
gosto de observar essa perícia na obra de alguém que ultrapassou todas as
limitações impostas pelo nascimento humilde e saúde debilitada principalmente
pela epilepsia que naquela época não tinha um tratamento controlador.
Era um narrador perfeito, usando vários
processos especiais que variou bastante em seus livros. Assumindo a primeira
pessoa escreveu em Romances “Memórias
Póstumas de Brás Cubas”, “Dom Casmurro” e “Memorial de Aires”.
Em Quincas Borba usa a terceira
pessoa em que se põe como apenas
narrador que domina os acontecimentos. Em “A mão e a Luva” apresenta os personagens que iniciam o romance conversando. E em “Iaiá Garcia” a narração não é interrompida para reflexões, o que ele fez em alguns de seus livros. Em “Dom Casmurro”, chega a pedir desculpas pela interrupção que faz em prol de suas digressões. Conclusão
Machado de Assis realmente se porta
como um gênio da literatura. Saindo de um ambiente onde carece de cultura pelas
condições humildes do próprio nascimento desconhecendo totalmente a vida
cultural no início de sua vida, torna-se com o esforço e aprendizado
consciente, dedicação, desenvolvimento de potencialidades agudas e profundas,
observação pertinaz, convívio com pessoas
e mestres, muito estudo criterioso e constante e uma índole de auto perfeccionismo, o escritor brasileiro
mais festejado pela característica de usar técnicas e escolas adequadas.
Um gênio literalmente, que conseguiu
disfarçar seu pessimismo profundo pela vida, numa ironia fina, inteligente e
influências de humor como adquiridas pela leitura de
Cervantes Swift, Stern ou Dikens.
Machado de Assis colocou em suas
narrativas um sentimento trágico da vida, ao mesmo tempo em que fez desfilar
ante nossos olhos uma variedade de personagens antagônicos ou semelhantes mas
sempre estimulados pela sua perícia inominável.
Não poderia deixar de relembrar seu
extraordinário amor a Carolina, com
que viveu mais de 30 anos juntos e o soneto que fez
aos pés de sua sepultura, pleno de carinho, paixão e tristeza.
Claro que desde que ainda garota, li
“Helena”, e apaixonei-me instantaneamente
por Machado de Assis, Jamais pude deixar de me fazer acompanhar pelos
seus livros fascinantes. Soneto que Machado de Assis fez para sua mulher quando ela faleceu, quatro anos antes de sua própria morte: Querida,
ao pé do leito derradeiro OBRAS
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