Crianças de Deus
Antenor Ferreira Júnior

Na agonia da tarde, vislumbro toda a tristeza de uma cidade.

Há falta dos raios dourados do sol e sinto frio na alma.

Fico a tamborilar os dedos pela suja vidraça. Lá fora não há vida.

O que se move são autômatos, sem brilho, sem alma, sem cor.

Espaço acinzentado, com pontos a se movimentar a procura de abrigo.

A procura de lugar.

 

Colo os olhos na janela e fico a procurar a alegria,

Camuflada em meio à tanta solidão.

Crianças correndo de um lado a outro.

Seus folguedos são a fome e a miséria.

Brincam de morte e desespero.

Riem uma das outras, como se zombassem da angustia dos dias.

Amanhã será outro dia, mais um dia, talvez venha outra tarde,

E para elas talvez seja muito tarde.

 

Volto e me retraio e me recolho para mais uma noite.

Lá fora só o vento fino a abrigar os infantes.

Dos jornais de notícias frias só um calor pouco a lhes aquecer a pele.

No jardim das flores, um banco duro, é o leito.

Dormir para não se lembrar da fome, é o jeito.

E uma revolta a lhes encher o peito.

 

Olham as enigmáticas estrelas na noite fria da cidade grande.

Esperam silenciosas que o sono as levem.

Para os seus sonhos de crianças.

Sonhos com Branca de Neve e os Sete Anões.

Sonhos com Anjos e Fadas.

Sonhos de poder...

 

De poder acordar amanhã com um sol mais generoso.

De poder pensar em aliviar a dor da fome.

De poder ir para a escola e a conhecer dignidade.

De poder crescer sem injurias e humilhações.

De poder esquecer um pouco seus ombros pesados de problemas.

 

E vem de novo, o dia.

Hoje, com certeza, haverá mais e muitas brincadeiras.

Parece que estão mais felizes.

Parece até que Deus tratou de ouvir sua preces.

Ao menos o sol apareceu mais brilhante...

 

E vão alegres pelas ruas.

Desfilando seus trapos como bandeiras.

A colorir o frio cinza da metrópole

 

Meninos e meninas... pobres... meninos e meninas...

Crianças de Deus...

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