Poemas

Antenor Ferreira Júnior

INVERNO

 O dia amanheceu ao vento.

Enfim ele veio.

Entristecer as horas.

Acalentar o pensamento.

Chuva fina, a molhar os sonhos.

Trouxe névoa de abandono.

E um frio na alma.

A perturbar o sono.

 

O dia é silêncio.

Só o gotejar no telhado.

A solfejar pela tarde.

Sentimento de solidão.

Não há sons, nem alarde.

Voa folha morta.

Voa seu vôo perdido.

Vem esmaecer na minha porta.

Feito pássaro ferido.

 

Vem a noite.

Para se esquecer  de mais um dia.

Já não há a chuva.

Só garoa fria.

Fico a olhar para rua.

Só pequenos vultos.

São crianças nuas.

A procurar abrigo.

Gritam insultos.

Para se proteger do perigo.

 

Meninos! Filhos da miséria e da fome

Correm de um lado a outro.

Barulho.

Alguns sem roupas.

Muitos sem nome.

Todos sem orgulho.

E vão se confundindo na noite escura.

Uns aos outros.

Perdidos numa insana procura.

 

Da madrugada vem o lamento.

Nossas crianças cruas.

Choram canticos de tormento.

Amanhã não verão o sol no horizonte.

Pois este negro inverno, ainda está noite.

Com certeza haverá de matá-las.

Alí debaixo da ponte.

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